domingo, 1 de janeiro de 2017

Episódio 1: O fim

Quando a porta se fechou atrás de mim, senti como se tivesse acabado de levar um soco no peito, no meu ouvido rufavam tambores de um coração que não estava certo se havia algum objetivo no seu esforço interminável, todas as partículas de poeira do mundo se tornaram alguma massa áspera que inspirei com dificuldade.
Por um segundo todas aquelas malas e caixas empilhadas ao meu redor não faziam nenhum sentido. Era como se eu fosse mais uma vez a pessoa sorridente em preto e branco, num porta retrato logo no topo de uma caixa entreaberta, olhando para o que eu haveria de me tornar no futuro. E era inacreditável.
O pior de todas aquelas malas e caixas é que eu não tinha idéia do que fazer com elas ou comigo mesma.
Me quedei assim por alguns minutos. Reparei cada canto daquele corredor que costumávamos amar. O tapete vermelho no chão de madeira, as paredes brancas. Andei até a sacada comum que liga todos os apartamentos, de onde vemos o pátio central. Sentei no banco de madeira que comprei pra nós, logo embaixo da nossa janela.
Faziam 14 dias que eu não fumava, desde que estouraram os fogos, na meia noite do primeiro dia deste ano. Joguei todos os maços que tinha em casa no lixo, mas salvei um único palheiro. Agradeço ao meu eu ingênuo do passado esse consolo. Um vazio tão profundo só poderia ser preenchido com fumaça.
Ascendo o cigarro com o isqueiro de plástico do Batman que você comprou pra mim entre risadas embriagadas, numa banca de jornal vagabunda, dia desses voltando para casa. Não eram nem oito horas da noite. E me dou conta de quanta coisa vou ter que esconder em caixas no armário para tentar não viver em torno da idéia de que sou uma mulher de 30 anos que tem um amor frustrado e a menor idéia do que fazer da vida.
Me passa pela cabeça te suplicar que me ame e me aceite de volta. Mas então me lembro de que nos últimos 6 anos vivi justamente suplicando, e te seguindo, e reorganizando infinitamente minha vida para que coubesse num relacionamento pelo qual eu lutava sozinha. Eu sabia que nem o amor imenso que agora esperneava no meu peito, nem a certeza pungente de que não vejo e não quero ninguém mais do meu lado que não seja você, nem isso podia compensar a perspectiva de ser figurante na minha própria vida.
O cigarro acabou e eu deixei o isqueiro em cima do banco, junto com o porta retrato. Era o começo do que eu já sabia que seria uma longo processo de dizer adeus. Chamei o elevador e olhei pela última vez pra nossa porta de madeira, alta, de duas folhas. Empilhei as caixas, dentro do elevador, enquanto mantinha um pé na porta, fazendo uma quase-acrobacia para impedir que ela se fechasse. Coloquei meu mochilão no ombro e peguei a mala de couro que sua mãe me deu. Chamei o táxi.
O motorista simpático me ajudou a carregar minhas coisas. No caminho ele contou que trabalhava no transporte coletivo da cidade e nas horas extras fazia uns bicos como taxista. Eu perguntei como é que ele conseguia. Da minha recente convivência com as lideranças do sindicato dos trabalhadores do transporte urbano eu tinha uma noção de que se tratava de um emprego extremamente cansativo, com pouquíssimos períodos de folga.
Enquanto ele me contava sua história, de como passou de motorista de caminhão quando era mais moço, para motorista de companhias de ônibus que faziam viagens interestaduais, e por fim  o trabalho no transporte coletivo, eu digitava uma mensagem curta no whatsapp que avisava que eu estava indo pra casa e explicava sucintamente a situação.
"A passagem de ônibus deve aumentar daqui uns dias né? Todo ano é assim.". E ele respondeu que ouviu falar algo do tipo. Fico divagando sobre como poderíamos mobilizar mais pessoas, de uma forma mais organizada e menos espontaneísta, para lutar contra o aumento. Ir e vir deveria ser um direito garantido.
Me lembro dos estudantes secundaristas que conheci recentemente e do dia em que me disseram que não podiam ir a uma reunião porque não tinham dinheiro para o ônibus (mas que talvez eles pudessem ir se eles "jumpassem" - entrassem no ônibus ou na estação sem pagar a passagem). Senti um desconforto estranho. Já sou militante há muito tempo, mas até aquele dia nunca a questão do transporte tinha me parecido tão concreta. 
Quando cheguei à rua que mais conheço, vi que um velho barrigudo, de óculos e barbas brancas me esperava na porta. Corri para ele e só quando meu pai me abraçou forte foi que caíram as primeiras lágrimas. 

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