sábado, 7 de janeiro de 2017

Episódio 2: Indo conhecer Luisa

Conheci Luisa numa festa junina da Arquitetura, anos atrás, quando éramos ainda universitárias. Olhando daqui, nem sei o que eu estava fazendo lá. Ou, se você for dessas pessoas que acreditam que os astros se alinham com o único objetivo de ditar sobre a vida dos minúsculos seres que andam sobre duas pernas na superfície deste planeta, talvez pense que sabe exatamente o que eu estava fazendo lá: eu estava indo conhecer Luisa.
O fato é que ela estava trabalhando no bar naquele turno e por alguma razão, olhei pra ela de longe e soube que precisávamos nos falar.
Veja, Luisa é uma mulher linda, e se houve uma característica constante no nosso relacionamento totalmente inconstante foi que, em absolutamente todos os momentos, mesmo nos piores, todas as vezes que olhei pra ela senti uma vontade irresistível de fugir e ao mesmo tempo, senti o mundo inteiro passando a girar numa órbita diferente, a órbita do universo que gira em torno do astro Luisa.
Apesar disso, ela não tem uma beleza óbvia. Ela não corresponde a padrões muito convencionais. Ela tem o cabelo castanho, meio liso, mas com um certo volume, a pele muito branca, é alta, tem o quadril largo, pernas grossas.
Num outro dia, num outro momento, ela poderia ter passado despercebida, até porque, até então eu nunca tinha me atrevido a tomar a iniciativa de beijar uma mulher, eu tinha sido sempre procurada, sempre beijada.
Neste dia eu olhei pra ela e soube que precisava fazer alguma coisa.
Primeiro fui até o bar e esperei que fosse ela a me atender. Troquei algumas palavras "tudo bem? legal a festa, né?".
Na verdade a festa era comum. Aconteceu numa construção antiga da cidade, que abriga durante a semana algumas atividades culturais, num pátio antigo e descoberto. Corriam luzes e bandeirinhas por quase toda a extensão do teto de céu acima de nós. Em torno, várias barraquinhas, maçã do amor, milho, pipoca, quentão, cadeia do amor. No centro algumas mesas de plástico. Me corrijo: era uma festa junina comum. E eu amo festas juninas (talvez tenha mencionado algo do tipo nessa primeira conversa casual com ela).
E ela foi educada, nada além disso. Me lembro de já nesse momento ter reparado que ela tinha olhos de girassol. Explico: Luisa tem os olhos verdes, mas são também meio amarelados no seu centro. A mancha amarela em torno da pupila forma, em conjunto com o buraco negro do centro dos seus olhos, a imagem exata de um girassol.
E eu fiquei me torturando, pensando em como eu poderia fazer com que os olhos de girassol se abrissem pra mim de tal maneira, que me dessem a permissão para fazer parte do seu universo e imaginário. Foi quando me ocorreu a ideia, já compartilhada por tantos namorados na história, proporcionada pelo timing perfeito que o momento nos proporcionava: pedi a uma amiga que prendesse tanto eu, quanto ela, na cadeia do amor.
E foi quando o destino (no qual não acredito) veio em meu socorro. Já dentro da cadeia, ela soltou um suspiro de insatisfação e disse "não tenho mais dinheiro pra pagar pra sair desse negócio, vou ficar aqui pra sempre", e eu fingi que também não tinha mais nenhuma moedinha. Propus em tom de brincadeira embriagada que nos beijássemos e acabássemos logo com isso. E foi assim que ganhei o primeiro beijo muito rápido e doce, da mulher que seria a fonte das maiores dores e maiores delícias da minha vida nos próximos anos.
Depois disso fiquei em torno dela, conheci os dois amigos com os quais ela estava, um menino e uma menina. Fui saber muito tempo depois que, na realidade, ela e essa amiga estavam num meio clima de romance e que, além disso, outras pessoas com as quais ela ficava nessa época estavam na festa, mas não percebi nada disso, de forma que quando ela propôs que fizéssemos um rolê barato no centro da cidade (que provavelmente significava comprar uma garrafa de vinho vagabundo e bebê-lo na calçada), não titubeei em aceitar.
A amiga da Luisa ficou pouquíssimo tempo conosco, logo disse que estava cansada e que iria pra casa. E nos primeiros momentos que tivemos a sós, quando o outro amigo se afastou para ir ao banheiro, a beijei, dessa vez um beijo demorado, aproveitando cada segundo dos lábios que tinha desejado a noite toda.
Quando abrimos novamente os olhos, o olhar dela era confuso, como se não acreditasse no que tinha acontecido, mas era também feliz. Os olhos de girassol finalmente se rendiam, e me recebiam de braços abertos (ou, talvez, mais ou menos abertos, como eu viria a descobrir depois).

"A vida toda eu esperei por agora
Sentir o teu perfume assim tão de pertinho
Esse teu cheiro que existe só na flora
Naquelas flores que também contém espinhos

A vida toda eu esperei essa glória
Beijar mordendo esses teus lábios de fruta
Boca vermelha cor de amora
Cor de aurora"

https://www.youtube.com/watch?v=_BK3qEKWKQM



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