domingo, 15 de janeiro de 2017

Episódio 3: Mordaça

Cheguei na Redação depois de quase duas hora divididas entre um ônibus e um metrô incrivelmente cheios, para depois andar duas quadras debaixo de uma chuva torrencial, diante da qual minha pequena e frágil sombrinha parecia uma piada sarcástica.
Entrei no meu pequeno gabinete com o cabelo, muito preto, comprido e anelado, ainda pingando, apesar dos meus esforços inúteis para me secar no banheiro do saguão.
O meu suspiro de insatisfação fez balançar o amontoado de folhas pregadas com durex na divisória logo na minha frente.
Ninguém parecia entender, e era, na realidade, um motivo de deboche, a razão pela qual eu preferia imprimir todas as minhas fontes e referências, e amontoá-las assim, ao invés de simplesmente organizá-las numa pasta no computador.
Não sei bem se o fazia porque realmente a palavra impressa me parecia mais concreta, e gostava de rabiscar, cortar, colar notas, post its no papel; se era porque sou metódica e gosto da sensação tátil e visual de ter em torno de mim todas as peças necessárias para compor o quebra-cabeças do meu texto; ou se se tratava de um mero preciosismo, algum apego a uma ideia de Jornalismo que já não correspondia à minha realidade.
Olhares de desaprovação por cima dos gabinetes. "Como se eu tivesse culpa de estar chovendo! Nem todo mundo tem carro não, se a vida de vocês é fácil, uma notícia que pode surpreender: não é assim pra maior parte dos 200 milhões de habitantes desse país!". E com essa frase desaforada eu quebro meu jejum de brigas no trabalho, jogo no lixo um esforço de semanas tentando construir uma política de boa vizinhança. Eles desviam o olhar e eu saio bufando para encher minha caneca de café.
Vou pensando que realmente preciso parar de repetir a equação básica da minha vida, em que meu nível de frustração é diretamente proporcional à quantidade de café, cerveja e chocolate que irei ingerir por dia.
Sento com meu copo e vasculho minha mente em busca da resposta pra dúvida que me atormenta dia após dia: Em qual momento a escrita que tinha sido meu cais, minha motivação, minha característica mais essencial, passou a ser simplesmente o meu sustento, na prisão das horas que vai se tornando o trabalho na vida daqueles que, como eu, se submetem a empregos frustrantes para sobreviver?
O cômico disso tudo é que sempre havia me achado muito corajosa por ter escolhido uma profissão tão pouco valorizada, em prol do que eu acreditava que me faria feliz. Só não cogitei que o sistema pudesse me engolir de tal forma, que o que foi a estrutura das minhas asas se tornasse a fundação sólida de uma cela, na qual se esquadrinhava o meu tempo desbotado existindo, e não vivendo.
Lanço um olhar de raiva para as palavras na minha frente e espero que elas entendam que não estamos bem. Nem venham tentar reatar comigo na primeira taça de vinho, suas vendidas. Eu sei muito bem de que lado vocês estão - penso comigo e sorrio por um segundo.
Mas sou extraída desse pensamento pela vibração do meu celular: "Olívia, está confirmada sua participação na mesa sobre Democratização da Mídia hoje as 17h na Universidade?".
Está confirmada? Vejamos. Se formos sair daquele anfiteatro para pegar em baionetas, e tomar a sede da grande emissora - voz da elite brasileira, Vossa Alteza Golpista - dando uma prova de heroísmo quase tão brilhante quanto a de João Cândido e seus companheiros, quando apontam os canhões da Marinha para o Rio de Janeiro; Se formos ser um pouco como Marighella e instituir, por um dia, por uma hora que seja, uma nova versão da Rádio Libertadora; Se formos sair dessa mesa e dar nossas vidas para que a comunicação humana seja livre, Com certeza! Conte comigo!
Respiro fundo... Ela já deve estar se perguntando porque as setinhas estão azuis e eu ainda não disse nada: Sim, está confirmada.
Segue o dia chato no lugar monótono em que são desperdiçadas, diariamente, pelo menos 8 horas da minha vida (fora as que são gastas no transporte). Preciso avisar o Cláudio que vou ter que sair mais cedo. Fico me torturando alguns minutos, tentando pensar no que dizer, como dizer. Mas antes que eu consiga me decidir, ele aparece na porta de sua sala pomposa e grita que precisa falar comigo.
- Olívia, você sabe que estamos passando por um momento de crise, não é? Hoje mais cedo tive que demitir a Adriana, você se lembra dela? - Claro que eu me lembro dela, ontem mesmo ela me contou que estava grávida - Pois bem, estamos nos dividindo pra revisar as matérias que ela estava escrevendo. Precisamos fechar a edição de segunda ainda hoje, então todos vão trabalhar um pouco mais. Mas não te chamei aqui só pra isso.- Ele continua - Olha só, Olívia, você escreve bem, você sabe que foi por isso que eu te contratei. Mas aqui nós somos imparciais, suas matérias mais parecem artigos de opinião. Não cabe na nossa revista a opinião política dos jornalistas, e muito menos esse lirismo todo da sua escrita. E é a última vez que temos essa conversa, ok? Estou lutando aqui pra manter seu emprego, mas você precisa me ajudar.

Deixei as sacolas no chão para abrir a porta do nosso pequeno apartamento, e cheguei a tempo de a pegar no flagra assistindo um episódio da série que combinamos assistir juntas.
- Ué, meu bem, a mesa acabou mais cedo?
- Eu não pude ir, o Cláudio me enrolou, ameaçou me demitir, enfim, não quero falar disso hoje, pode ser? Amanhã eu te conto. Trouxe cerveja, vamos tomar?
E nos sentamos na janela da cozinha, como gostávamos de fazer, fumando palheiro e conversando, até os carros irem ficando cada vez mais escassos lá embaixo, na rua agitada. Ela agora tagarelava sobre o livro do Saramago que estava lendo.
No fim da última cerveja, sentia uma certeza muito concreta de ter tomado a decisão certa. Eu detestava aquele trabalho, aquela cidade, mas ela estava ali. No fim do dia o cheiro do sabonete de limão que ela usava enchia meus pulmões e, ao menos nesse momento, parecia preencher tudo. Era difícil acreditar que eu, a pessoa que sempre se entediou com relacionamentos depois de dois, três meses, mesmo após tanto tempo, tanta vida, tantos dias amanhecendo lado a lado, ainda me sentia inebriada...
- Que que cê tá me olhando assim?
Antes que eu pudesse responder, ela esbarrou no cinzeiro que se espatifou no chão. Desceu da janela num pulo para limpar a bagunça de cinzas e cacos na cozinha.
- Eu te amo, só isso.
Me lembro desse momento agora e ainda não consigo saber se ela não me ouviu ou se simplesmente não quis responder.









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