sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Episódio 4: Olhos de cão azul

https://www.youtube.com/watch?v=DUqejMZZxP0

Pedro tem dois olhos curiosos e uma maneira tão particular de entender o mundo. Particular porque desmancha o objeto de sua atenção em partículas, e vai da parte para o todo, e do todo para a parte. 
Ele procura a essência das coisas, ele deseja desvendar os porquês ocultos em tudo que existe, quer saber do funcionamento de isqueiros, do processo de combustão de todo e qualquer material (Pedro ama colocar fogo nas coisas, e isso já o levou incontáveis vezes a quase-incêndios), dos contratos implícitos da política e tudo o que escondem, das leis que regem o Universo, da física dos astros, das órbitas, dos átomos.
De todas as pessoas que conheço, Pedro talvez seja o ser humano mais desprendido das pré-concepções, das coisas que de início já se consideram verdadeiras, o conjunto gigantesco de pré-supostos que internalizamos sem nunca pensar a respeito. Tudo o surpreende, procura compreender o mundo com imenso espanto. Alma de filósofo.
Pedro carrega uma solidão profunda nos olhos castanhos. Nos conhecemos muitos, muitos anos atrás, e nos conectamos instantaneamente. Naquela época ele era muito mais menino, muito menos triste.
Da conexão das nossas almas, nasceu um acordo implícito, sempre presente, de que cuidaríamos um do outro. Sentíamos um amor que nunca soubemos explicar. Ele era meu melhor amigo e eu nunca soube se o amava como irmão, como amigo, como namorado. Ás vezes ele era meu avô, ás vezes ele era meu filho.
Na época do término do meu relacionamento passávamos ambos por um momento da vida que era um turbilhão. Tendo a pensar que esses momentos são sempre a transição, os pontos decisivos em que tudo muda. Ele estava deixando o curso, confuso com a vida, sem grana, sem saber se voltava para a casa da mãe (numa cidadezinha relativamente próxima), quase sem nenhuma perspectiva. Eu estava de volta a minha cidade natal, deixando a pessoa que considerei ser o amor da minha vida, voltando para a casa do meu pai. A vida girava em torno de nós como furacão.
Me lembro de sentir o coração apertar quando ele me contava das tardes que passava sozinho, dividindo o tempo entre anotar todos os seus sonhos e jogar xadrez consigo mesmo.
Não sei contar quantos dias passei naquela casa, naquele quarto.
Tínhamos mais ou menos uma mesma rotina. Eu chegava, ás vezes íamos no mercado comprar algo para comer, fazíamos café e ficávamos conversando, enquanto ele fumava na janela. 
Nessas ocasiões ele me ensinava coisas surpreendentes, que não interessam às pessoas comuns, como técnicas para ter sonhos lúcidos. 
"É difícil ter consciência de que você está sonhando. Por mais ilógicas que lhe pareçam as coisas no momento que você acorda, no contexto do sonho elas parecem perfeitamente normais. Pra ter um sonho lúcido, você precisa ter um totem, algo que vai ser sua referência para diferenciar a realidade do sonho. A maioria das pessoas conta os próprios dedos (nos sonhos raramente eles são 5, ou são dedos normais). Mas pra isso funcionar, você precisa se condicionar a contá-los mesmo quando está acordada, isso tem que virar um costume, se não você não vai se lembrar de fazer isso quando estiver sonhando."
E então ele me contava do último sonho lúcido que havia tido. Estava num apartamento com a mãe, a avó e outras pessoas desconhecidas. No meio de uma conversa comum, ele se lembra de contar os dedos. Mas seus dedos não são 5 e nem parecem dedos, mais parecem dentes de um pente. De cada mão saiam cerca de 12 deles. Ele corre para o banheiro e se olha no espelho. Seu rosto está todo desfigurado, como num quadro cubista. Ele volta para a sala e grita "nada disso está acontecendo, é tudo um sonho!". E as pessoas começam a se questionar incessantemente "isso é um sonho? isso é um sonho?".
Enquanto ele me guiava por suas histórias incríveis, suas novas ideias, eu me sentia privilegiada por poder dividir a vida com ele, por ter tido permissão para adentrar um espaço que, eu sabia bem, era concedido a muito poucos.
Quando chegava a noite, íamos até a conveniência do posto, que distava dois ou três quarteirões de sua casa, comprávamos algumas cervejas, deitávamos no colchão (ele nunca tinha comprado uma cama) e assistíamos um filme, quase sempre psicodélico, que eu quase nunca conseguia terminar. E ele tirava o computador de cima de nós, me cobria, e se deitava abraçado comigo.
Sinto falta desse abraço. Sinto falta de passar minutos olhando dentro dos olhos dele sem dizer uma única palavra. Sinto falta da honestidade, de me sentir amada e saber que, justamente por isso, cabia ali qualquer coisa que eu quisesse ser.
E éramos, éramos tudo. Nos permitíamos não saber o que éramos.

Planejamos minunciosamente um grande assalto
Sequestramos os ponteiros do relógio
Fizemos o mundo virar do avesso
E nesta lacuna de impossibilidade
Transformada em lugar concreto
(Furo forjado no espaço-tempo)
Concretizamos a promessa
De estarmos sempre juntos

Vivemos eternidades
Dormimos nas estrelas
Inventamos histórias, tantas
De tudo o que somos
Do que é o mundo e o que são as coisas
Escrevemos novas leis, novas regras
Um novo dicionário
Mergulhamos no silêncio um do outro
Nos olhos um do outro
Na pele e no cheiro um do outro
Passamos a morar
Um dentro do outro.

Foi quando o primeiro raio de sol
Adentrou a janela do meu quarto
E me acordou.
Você não estava do meu lado.
Passei a te procurar nas esquinas
Nas padarias
Nos sinais fechados
Onde estão seus olhos?
Olhos de gato
Os meus olhos tristes de cão
Despejam lágrimas
Na minha imensidão
Eterna escuridão
Azul.








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