sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Episódio 5: O bar



Depois do choro no abraço do meu pai, e da rápida mensagem ao Pedro ("Pê, eu e a Luisa acabamos de vez, cheguei agora pouco com todas minhas caixas e malas de volta à casa do meu pai. Vou colar lá no Pereira daqui a pouco, se você puder aparecer, ia ser bom ter sua companhia."), passo na boca meu batom vermelho preferido, vermelho sangue vivo, prendo meu cabelo muito preto e cacheado num meio rabo, olho no espelho e me lembro de fazer o que o João, meu terapeuta, havia recomendado que eu fizesse diariamente: olho no fundo dos meus olhos e procuro enxergar nessa moça muito branca, de nariz arrebitado, cabelos rebeldes, dois olhos negros como petróleo, alguém que eu pudesse amar.
Será que se de fato eu me amasse e fosse feliz, sobraria algo para escrever? Porque minha escrita sempre foi o contraponto à minha tristeza, ao vazio no peito que nada preenche. Minha escrita é a peneira frágil que dá a ilusão de proteção, mas que nunca jamais pôde tapar o sol. Por hora não me preocupo, afinal de contas, felicidade e amor próprio são nada mais que uma ideia utópica, em algum ponto muito além do horizonte que se anuncia no exato limite do que a visão alcança.
Bolsa, carteira, meus cartões estão aqui? estão, chave, batom, caderninho e caneta, celular, será que preciso levar carregador? acho que não, blusa de frio, vou amarrar ela aqui na alça da bolsa, pronto, vou andando mesmo.
Caminho na noite escura da cidade onde nasci, pelas ruas mal iluminadas, mas hoje não sinto medo. Caminho e vou rememorando fatos da minha vida, a cada esquina um amor que passou, um término trágico, o moço que me deu adeus no elevador ("você está bem?" "não"), a moça que partiu pro exterior, a mãe que eu nunca tive. Me lembro da trilha que nos levou ao fim, eu me mudando para a cidade dos seus sonhos, o vazio de uma vida a te acompanhar, o emprego naquela redação horrível, minha infelicidade. De volta a minha cidade, novas oportunidades, o trabalho no Brasil de Fato, você na sua velha profissão, o vazio de uma vida a me acompanhar, sua infelicidade. Até descobrirmos que jamais poderíamos viver sob o mesmo teto.
Avisto de longe meu bar, a parede amarela descascada, os velhos bêbados, os universitários sentados nas calçadas, os artistas com seus violões, um monte de gente meio intelectual, meio de esquerda. Adentro meu boteco preferido, abarrotado de estantes com salgadinhos, seus dois freezers velhos, num deles queijos meia cura, catuaba, refrigerante, no outro a cerveja. Atrás do balcão vejo o velho Pereira, e atrás dele produtos de todo tipo, leite, macarrão, sabão em pó, detergente, absorvente, papel higiênico. Este deve ser o único bar do mundo em que os pedidos ainda se anotam à mão numa caderneta.
"E aí, Olívia."
"Oi, Pereira, um litrão pra mim, um copo só."
"Tá certo. Olívia, o pandeiro tá aí hoje, vamos tocar aquela música do Cartola? Pede o violão pros meninos."
"Ô Pereira, não tô muito na onda de samba hoje não, pode ser outra hora?"
Sento na calçada com a minha cerveja. O quadro não é muito diferente do habitual. O brinde, no entanto... Brindo com o universo e com a minha garrafa de cerveja o fim de mais um capítulo da minha vida. Veja, todo final de uma boa história merece um brinde.
Alguma parte de mim te espera. Mantenho os olhos no alto da rua e fico aguardando o momento em que vou ver descendo pela calçada os olhos de girassol, atrás de óculos redondos, um camisetão que você usa como vestido, a jaqueta jeans. Seu jeitinho de cult bacaninha. A ansiedade vai corroendo aos poucos meu peito, como pequenos ratos canibais, antropofágicos.
Ao invés disso, avisto Pedro, chegando com seu cabelo nos ombros, muito fino, quase loiro, um sorriso de dentinhos tortos, um all star e a camisa xadrez. Sinto alívio. Ele sempre me resgata de mim.
Senta comigo, passa o braço em volta do meu ombro, e eu me deixo ali, num silêncio confortável.
"Você quer falar sobre?"
"Não quero não, podemos falar de outra coisa?"
E aí ele começa a me contar sobre suas recentes discordâncias com a teoria Marxista.
"Veja só, reconheço cada vez mais a genialidade do barbudo. Mas tem um ponto que acho incoerente. A teoria do Marx parte do empirismo, da análise da realidade concreta, materialismo, não é mesmo? Criando um método tão bem estabelecido, como ele pode prever algo que foge dessa lógica? Tô falando do socialismo. Não existe nada na realidade concreta, empiricamente falando, que nos leve à conclusão de que o socialismo vai inevitavelmente existir. E aí passei a dividir o Marx em dois: o cientista, e o profeta."
Uma parte de mim sorri porque acho a crítica dele muito inteligente. Mas não estou convencida. Explico a ele meu ponto e vista. Que, talvez uma das coisas mais incríveis do Marx seja que ele não escreve somente dentro de uma perspectiva de criar uma teoria para o mundo acadêmico. Ele escreve pretendendo que seus escritos sejam um passo na modificação da realidade em favor dos trabalhadores. Ele sabe que o simples fato de um grande cientista, como ele, vislumbrar uma realidade de não exploração, de justiça, inspira à luta muitos daqueles que precisam que o mundo seja diferente. Aliás, o Manifesto Comunista era, na verdade, um grande panfleto.
Talvez teoricamente fosse coerente, mas em termos de princípios, como ele poderia esmiuçar o capitalismo, mostrando sua face mais tenebrosa, de exploração, de miséria, de expropriação da força e da vida de bilhões, e não propor absolutamente nada?
"Não sei se o socialismo vai existir, Pê. Mas sei que ele precisa existir, porque a realidade é insuportável. Sei que vou dar minha vida para que isso seja real, porque se não for, nada faz sentido. Não posso assistir da poltrona da minha casa o extermínio da juventude negra nos morros, justificado pela guerra às drogas. As pessoas dormindo, exaustas, no ônibus, vendendo toda a força que possuem para sobreviver e enriquecer uns poucos. Mães adolescentes se despedindo de seus bebês as 6h da manhã, deixando-os com as avós, para ir cumprir o destino de toda empregada doméstica nesse país: um salário péssimo, insuficiente, criar os filhos dos outros e não os seus, chegar em casa e fazer janta pro marido, ver os filhos crescerem para acabarem na mesma: as meninas ficam grávidas, os meninos vão parar na cadeia."
O mundo precisa de uma ruptura. Eu preciso de uma ruptura, preciso mudar. Há tanto para fazer, não posso perder minha vida esperando um amor que foi vendido para as mulheres, para que elas jamais fossem sujeitas da história, protagonistas de suas próprias vidas. Não posso me render a essa ilusão de um felizes para sempre. Sou eu que tenho que ser feliz comigo. E lutar pela libertação do meu povo.
Grito de onde estou sentada "Pereira, cê ainda tá afim de tocar aquela música do Cartola?". E então o velho pega o pandeiro, eu peço o violão emprestado, e as vozes bêbadas do bar começam a entoar:
Alvorada, lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo, é tão lindo, é tão lindo...
Uma decisão começa a se formar em minha mente. Decido que no dia seguinte me entregarei ao ritual que criei para os momentos em que preciso mudar minha vida.
Amanhã vou cortar o cabelo curto.








Nenhum comentário:

Postar um comentário