segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Episódio 7: Gota d'água

Depois da crise de ansiedade na Redação, Cláudio me recomendou fortemente uma semana de folga, e a mocinha que trabalhava no pequeno gabinete ao meu lado, com os óculos grandes demais para o rosto, e o olhar sempre baixo, me entregou timidamente o cartão de seu terapeuta, dizendo num timbre quase inaudível: "ele é muito bom, Olívia, pode te ajudar."
Nos dias que se seguiram não tive forças para me levantar. Era como se de repente tudo aquilo tivesse convergido para um único ponto, tão infinitamente denso, e essa massa gigantesca e instável que há muito crescia no meu peito, finalmente tivesse ultrapassado o limite da gravidade, e se tornado buraco negro, a sugar para dentro de si toda a luz. Em outras palavras, essa última gota de humilhação tinha sido a que faltava para tornar a realidade definitivamente impossível de se sustentar, e agora ela jazia ali, tranquilamente a me esmagar sobre travesseiros.
Luisa tinha tentado ajudar. No primeiro dia ficou abraçada comigo, vimos dois filmes, ela recusou o convite para sair com os amigos, deixou para o dia seguinte os trabalhos que tinha se organizado para realizar.
Mas à medida que os dias foram passando, fui percebendo que me tornava um peso. Na verdade, aos poucos fui entendendo que há algum tempo eu era um peso. Porque minha infelicidade nesses primeiros 6 meses no Rio de Janeiro, contrastava tão nitidamente com a alegria dela, e a limitava de alguma forma. Eu tinha me tornado dependente demais, ela tinha dito numa das nossas conversas na janela da cozinha, cerca de um mês atrás, com um ar sério, entre tragadas no cigarro de palha. "Eu preciso de tempo a sós com meus amigos, preciso respirar, Olívia, preciso ser eu."
Desde então eu passava muito tempo sozinha naquele apartamento apertado e branco. Tinha começado a desenhar nas paredes para afastar a sensação da brancura vazia. Ajudou um pouco. Numa parede desenhei uma janela que dava pruma paisagem montanhosa e ensolarada. Na outra um retrato do meu pai numa moldura, feito de giz de cera. Desenhei e quando coloquei ali o último traço de cor, senti as lágrimas rolando incontrolavelmente pelas bochechas, me sentei no chão a observá-lo, encharquei minha camiseta com tanta água. Me quedei assim por quase uma hora. Seu olhar confortável na parede era prova irrefutável do meu desajuste.
Eu estava deitada na cama, imersa nesses pensamentos, quando meu celular apitou. Luisa estava avisando que ia naquele bar perto da sede do partido, e que provavelmente não voltava para casa hoje, devia dormir na casa de alguém que morasse mais perto, "a dificuldade do transporte, você sabe".
De repente, as paredes do quarto parecem se debruçar sobre mim, o espaço vai ficando estreito, o ar começa a faltar. Minhas mãos estão suando, o coração acelerado batendo como um tambor ritmado, ensurdecedor, em meus ouvidos. Eu não consigo respirar, eu não consigo respirar. Tento puxar o ar, ele não vem, meu peito arde. Saio correndo. Porta a fora. As luzes são confusas, o rosto das pessoas me assusta. Não sei onde estou.
Não sei por quanto tempo andei. Quando voltei a mim, estava diante do bar sobre o qual ela tinha falado. Tento me acalmar. Entro devagar. Luisa me vê, e empalidece. Só então percebo que estou de pijama, de chinelos, o suor me escorre pela testa. Eu faço menção de ir até ela, mas ela vira o rosto, como se não tivesse me visto. E então eu dou meia volta e saio pela porta.
Dois quarteirões adiante encontro um ponto de táxi, digo o endereço ao senhor de cabelos brancos. Na porta de casa peço para que ele aguarde enquanto subo para pegar o dinheiro. Sempre deixo uma reserva escondida dentro de um caderno para urgências. Pago o senhor e agradeço. Ele me entrega o troco e as palavras, "vai passar, filha, sempre passa". Eu aceno para ele, não sou capaz de responder.
Sento sobre minha cama, abraço meus joelhos e aguardo o amanhecer do dia, que demora muito mais que o habitual.
Quando os raios de Sol adentram o quarto branco, escolho uma roupa, tomo banho, vou até a padaria, pão, um pacote de café, manteiga ainda tem. Volto para casa carregando sacolas, passo o café e como sozinha na cozinha, enquanto rabisco algumas palavras no meu Caderno de Anotar a Vida. Espero dar 8h. E então pego o cartãozinho de papel em minha bolsa, disco os números.
"João, meu nome é Olívia. Recebi a indicação do seu nome por uma colega do trabalho, estou precisando muito fazer terapia".












quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Episódio 6: A bailarina

1, 2, 3, 4.
5, 6, 7, 8.
Sexta posição, brabas.
E plié, gran plié, tendue, arabesque, fouetté.
Gira.
Gira.
Gira. Olha a marcação de cabeça, fiquei tonta, estou tão destreinada, o que eu estava pensando?
"Olívia, as meninas vão entrar agora e depois é você. Aquele xis de fita crepe no chão é o centro do palco, ok? Fica atenta à luz."
Passam por mim apressadas as pequenas bailarinas, com seus 11, 12 anos. Muitas usam aparelhos, algumas ainda mostram algum nível de desproporcionalidade no corpo ossudo, com braços longos demais. Outras tiveram que lidar com a montanha russa de hormônios mais cedo, e ajeitam cheias de vergonha os sutiãs. Elas exauram nervosismo.
Alguém toca meu braço. É Alice, a mocinha que conheci há pouco, enquanto me alongava no camarim.
Ela tinha chegado esbaforida, e antes de iniciar a maquiagem, me ofereceu um salgadinho que a mãe tinha colocado em sua bolsa. Entre uma sombra e um delineador, me contou do menino mais bonito da escola, que não olhava pra ela.
Lhe parecia muito natural, afinal, ele era um desses meninos que todo mundo gosta: mais velho, bom nos esportes, cheio de amigos com os quais ia para o clube nos finais de semana; e ela era só uma menina que gostava de ler e que não era sócia de clube nenhum.
A família de Alice tinha incentivado o ballet para ver se ajudava com toda aquela timidez. "Quem sabe no palco você se solta, minha filha, o que você acha?".
Me vi em Alice e por isso ficamos amigas. Lhe contei alguns segredos de uma mulher de quase 30 anos: esse mocinho logo estará cheio de espinhas. Daqui uns anos, quando você encontrá-lo novamente numa esquina qualquer da vida, cheia de projetos e ambições (coisa de quem sempre gostou de ler) e você vai rir de ter sofrido tanto, vai perceber que agora é preciso muito mais que ser bom nos esportes, é preciso ser um homem com uma mente vasta e muitas ideias para conseguir te impressionar. E olha, o palco ajuda sim com a timidez, mas só se você se divertir. Se aquele momento for seu e de mais ninguém.
Alice toca o meu braço, e suspeito que meu rosto esteja tão aterrorizado quanto o dela. Toda a conversa de mais cedo tinha ido por água abaixo com aquele aviso de que eu era a próxima.
Me recomponho. Pela Alice. Por mim.
Merda pra você, Alice, merda! Se diverte! Vai ser lindo!
E então me lembro da razão pela qual estou aqui. João, meu terapeuta, alguns meses atrás, havia me assaltado com a pergunta cortante: "o que te faz feliz?". Antes que a mente formulasse uma resposta, a boca já disparava "a arte, a arte me faz feliz". "E onde está a arte agora?". "Não está".
E então ele tinha me dado uma tarefa. Com um pouco de descrença porque certamente eu era sua paciente mais indisciplinada. A tarefa era buscar novamente a arte-felicidade em minha vida.
Talvez para surpreendê-lo, talvez por estar tão faminta de alegria, eu resolvi voltar para o ballet. Estar naquela sala de barras e espelhos, pernas, meias, giz, sapatilhas, me colocava em contato com uma Olívia tão diferente. Mais sorridente, mais menina.
As epifanias me assaltavam nos intervalos para beber água, mas, ao mesmo tempo, durante os exercícios a mente se fundia ao corpo, e toda a minha atenção estava na postura, no braço, encaixa o quadril, força um pouco mais a ponta, esse joelho está baixo, assim não consigo me equilibrar. Não importava o quão estressada ou triste eu chegasse na escola, sairia sempre exausta, e sorrindo. Porque a emoção se torna música, ritmo e movimento. E tudo flui para o chão e para o ar.
Era minha vez. Ajeitei o vestido azul cheio de retalhos de chita, costurado pela minha avó a pedido meu, numa das visitas à minha casa. Pela primeira vez ia dançar com meus cabelos soltos. A música pedia. Passei a sapatilha de ponta dentro do pote de giz. E caminhei até o xis de fita crepe que marcava o centro do palco. Me coloquei em posição e levantei bem a cabeça.

A luz do palco não me permite ver nenhum rosto, apenas silhuetas na plateia. Veja, existe uma parede de luz entre o artista e o mundo. Não, não se engane com a expressão da artista. Ela parece dançar para você, mas na verdade dança sempre para si mesma.
Sinto o calor daquela luz invadir meu peito, e se irradiar por meus braços e pernas.
Logo se inicia a marchinha de Dorival Caymmi. Sinto alegria. Vou dançar "Suíte do Pescador". Escolhi essa música porque recentemente estive em São Paulo, no Memorial da Resistência, e nesta ocasião descobri que durante a ditadura militar, os presos políticos estabeleciam entre si a mais sincera e indestrutível solidariedade. E quando um deles era libertado, os outros entoavam essa música, em homenagem à liberdade.
Dancei com a minha alma. Dancei me sentindo parte da história de luta e resistência do meu povo. Dancei por ser mulher. Dancei a frustração do meu emprego. Dancei o desgaste do meu relacionamento. Dancei minha tristeza. Dancei a poesia de Caymmi. Dancei ao amor e à arte.
Quando o silêncio se fez, meus olhos estavam cheios de lágrimas.
Peguei minha bolsa no camarim e saí do teatro. Luisa me esperava do lado de fora, com uma florzinha na mão e meu casaco no braço. Logo que me viu, quando eu ainda estava a alguns metros de distância, começou a bater palmas. "Linda! Maravilhosa! Bravo! Bravíssimo!". Ela sorria com o mesmo sorriso tranquilo que tinha no rosto desde que nos mudamos para o Rio de Janeiro.
Corri até ela, abracei a mulher da minha vida tão forte, beijei, cheirei seu cabelo castanho fino, enchi meus pulmões das flores e dos espinhos de Luisa. E então eu disse o que eu tentei de todas as formas não ter que dizer.
"Lu, eu não posso mais ficar aqui. Estou muito infeliz nessa cidade. Detesto meu emprego, não tenho amigos, não tenho ninguém. Estou aqui há um ano, você não pode dizer que eu não tentei. Não tem nada pra mim aqui. Deixei todos os meus sonhos pra trás pra estar com você, mas não posso mais fazer isso."
Ela baixou os olhos, pegou minha mão, colocou a florzinha detrás da minha orelha, e eu vi no reflexo no vidro de um carro estacionado que suas pétalas brancas contrastavam de uma forma muito bonita com meu cabelo preto. Reparei na mãozinha branca e delicada, as pulseirinhas do senhor do bonfim, a medalhinha pendurada, olhei para a mulher branca ao meu lado no reflexo e no meu peito brotou uma saudade que nunca mais me deixou.

"Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer."