quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Episódio 6: A bailarina

1, 2, 3, 4.
5, 6, 7, 8.
Sexta posição, brabas.
E plié, gran plié, tendue, arabesque, fouetté.
Gira.
Gira.
Gira. Olha a marcação de cabeça, fiquei tonta, estou tão destreinada, o que eu estava pensando?
"Olívia, as meninas vão entrar agora e depois é você. Aquele xis de fita crepe no chão é o centro do palco, ok? Fica atenta à luz."
Passam por mim apressadas as pequenas bailarinas, com seus 11, 12 anos. Muitas usam aparelhos, algumas ainda mostram algum nível de desproporcionalidade no corpo ossudo, com braços longos demais. Outras tiveram que lidar com a montanha russa de hormônios mais cedo, e ajeitam cheias de vergonha os sutiãs. Elas exauram nervosismo.
Alguém toca meu braço. É Alice, a mocinha que conheci há pouco, enquanto me alongava no camarim.
Ela tinha chegado esbaforida, e antes de iniciar a maquiagem, me ofereceu um salgadinho que a mãe tinha colocado em sua bolsa. Entre uma sombra e um delineador, me contou do menino mais bonito da escola, que não olhava pra ela.
Lhe parecia muito natural, afinal, ele era um desses meninos que todo mundo gosta: mais velho, bom nos esportes, cheio de amigos com os quais ia para o clube nos finais de semana; e ela era só uma menina que gostava de ler e que não era sócia de clube nenhum.
A família de Alice tinha incentivado o ballet para ver se ajudava com toda aquela timidez. "Quem sabe no palco você se solta, minha filha, o que você acha?".
Me vi em Alice e por isso ficamos amigas. Lhe contei alguns segredos de uma mulher de quase 30 anos: esse mocinho logo estará cheio de espinhas. Daqui uns anos, quando você encontrá-lo novamente numa esquina qualquer da vida, cheia de projetos e ambições (coisa de quem sempre gostou de ler) e você vai rir de ter sofrido tanto, vai perceber que agora é preciso muito mais que ser bom nos esportes, é preciso ser um homem com uma mente vasta e muitas ideias para conseguir te impressionar. E olha, o palco ajuda sim com a timidez, mas só se você se divertir. Se aquele momento for seu e de mais ninguém.
Alice toca o meu braço, e suspeito que meu rosto esteja tão aterrorizado quanto o dela. Toda a conversa de mais cedo tinha ido por água abaixo com aquele aviso de que eu era a próxima.
Me recomponho. Pela Alice. Por mim.
Merda pra você, Alice, merda! Se diverte! Vai ser lindo!
E então me lembro da razão pela qual estou aqui. João, meu terapeuta, alguns meses atrás, havia me assaltado com a pergunta cortante: "o que te faz feliz?". Antes que a mente formulasse uma resposta, a boca já disparava "a arte, a arte me faz feliz". "E onde está a arte agora?". "Não está".
E então ele tinha me dado uma tarefa. Com um pouco de descrença porque certamente eu era sua paciente mais indisciplinada. A tarefa era buscar novamente a arte-felicidade em minha vida.
Talvez para surpreendê-lo, talvez por estar tão faminta de alegria, eu resolvi voltar para o ballet. Estar naquela sala de barras e espelhos, pernas, meias, giz, sapatilhas, me colocava em contato com uma Olívia tão diferente. Mais sorridente, mais menina.
As epifanias me assaltavam nos intervalos para beber água, mas, ao mesmo tempo, durante os exercícios a mente se fundia ao corpo, e toda a minha atenção estava na postura, no braço, encaixa o quadril, força um pouco mais a ponta, esse joelho está baixo, assim não consigo me equilibrar. Não importava o quão estressada ou triste eu chegasse na escola, sairia sempre exausta, e sorrindo. Porque a emoção se torna música, ritmo e movimento. E tudo flui para o chão e para o ar.
Era minha vez. Ajeitei o vestido azul cheio de retalhos de chita, costurado pela minha avó a pedido meu, numa das visitas à minha casa. Pela primeira vez ia dançar com meus cabelos soltos. A música pedia. Passei a sapatilha de ponta dentro do pote de giz. E caminhei até o xis de fita crepe que marcava o centro do palco. Me coloquei em posição e levantei bem a cabeça.

A luz do palco não me permite ver nenhum rosto, apenas silhuetas na plateia. Veja, existe uma parede de luz entre o artista e o mundo. Não, não se engane com a expressão da artista. Ela parece dançar para você, mas na verdade dança sempre para si mesma.
Sinto o calor daquela luz invadir meu peito, e se irradiar por meus braços e pernas.
Logo se inicia a marchinha de Dorival Caymmi. Sinto alegria. Vou dançar "Suíte do Pescador". Escolhi essa música porque recentemente estive em São Paulo, no Memorial da Resistência, e nesta ocasião descobri que durante a ditadura militar, os presos políticos estabeleciam entre si a mais sincera e indestrutível solidariedade. E quando um deles era libertado, os outros entoavam essa música, em homenagem à liberdade.
Dancei com a minha alma. Dancei me sentindo parte da história de luta e resistência do meu povo. Dancei por ser mulher. Dancei a frustração do meu emprego. Dancei o desgaste do meu relacionamento. Dancei minha tristeza. Dancei a poesia de Caymmi. Dancei ao amor e à arte.
Quando o silêncio se fez, meus olhos estavam cheios de lágrimas.
Peguei minha bolsa no camarim e saí do teatro. Luisa me esperava do lado de fora, com uma florzinha na mão e meu casaco no braço. Logo que me viu, quando eu ainda estava a alguns metros de distância, começou a bater palmas. "Linda! Maravilhosa! Bravo! Bravíssimo!". Ela sorria com o mesmo sorriso tranquilo que tinha no rosto desde que nos mudamos para o Rio de Janeiro.
Corri até ela, abracei a mulher da minha vida tão forte, beijei, cheirei seu cabelo castanho fino, enchi meus pulmões das flores e dos espinhos de Luisa. E então eu disse o que eu tentei de todas as formas não ter que dizer.
"Lu, eu não posso mais ficar aqui. Estou muito infeliz nessa cidade. Detesto meu emprego, não tenho amigos, não tenho ninguém. Estou aqui há um ano, você não pode dizer que eu não tentei. Não tem nada pra mim aqui. Deixei todos os meus sonhos pra trás pra estar com você, mas não posso mais fazer isso."
Ela baixou os olhos, pegou minha mão, colocou a florzinha detrás da minha orelha, e eu vi no reflexo no vidro de um carro estacionado que suas pétalas brancas contrastavam de uma forma muito bonita com meu cabelo preto. Reparei na mãozinha branca e delicada, as pulseirinhas do senhor do bonfim, a medalhinha pendurada, olhei para a mulher branca ao meu lado no reflexo e no meu peito brotou uma saudade que nunca mais me deixou.

"Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer."






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