sábado, 21 de maio de 2011

De sermos primeira pessoa do plural

Nota: este parágrafo é pedaço de um outro texto, e não se trata necessariamente de qualquer coisa verídica.

(...) Caíram nossas flores, depois nossas folhas, e agora somos como árvores nuas. Este outono nosso tem sua poesia, essa alegria nostálgica de uma sombra cheia de buracos, de brincar com o pontilhado não revelado entre os pedacinhos infinitos de uma verdade brilhante de sol.
Somos como aqueles pedacinhos óbvios de sol, nosso brilho é tão arroz com feijão que já tem gosto de todo dia. Ainda assim, em certas ocasiões nos damos conta da magia de existirmos exatamente como somos, em certos momentos o manto dourado do sol, a nos cobrir de luz e calor, germinando-nos de tudo quanto existe, torna-se aos nossos olhos vestido de um milagre particular. É quando nos reconhecemos, e é quando eu tomo fôlego para continuar o meu mergulho em direção à qualquer pedaço de verdade, de ser eu e de sermos nós, fixa como terra firme, para que possamos dar um último impulso e submergir de toda dúvida. (...)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Inveja Literária

Há algum tempo estou olhando para a tela branca, e sentindo pulsar em mim as palavras, sem conseguir concretizá-las.
Eu queria um texto que dissesse de tudo isso que tenho sentido, que contasse de todas as lágrimas que tenho derramado, e de todo aprendizado que, à trancos e barrancos, isso tem me trazido. Queria escrever qualquer coisa que pudesse falar de mim, e de tudo que eu gosto, e de como é bom, apesar de tudo, poder escutar o Caetano cantando Gil, e descobrir uma música nova do Chico.
Eu queria escrever uma conto que falasse bem sutilmente do mistério que é a vida, de como é sozinho existir, que falasse de toda a minha indecisão e dessas minhas discussões com Deus, assim como Clarice já me fez rir e chorar enquanto perdoava o Todo Poderoso.
Queria escrever uma crônica que fosse leve, e que pincelasse com humor negro (tão negro quando o humor daquele amigo dark do Caio Fernando de Abreu) a minha tristeza, e ao mesmo tempo, todo o amor por essa "poesia não vivida" que existe em mim, e que às vezes me invade em espasmos eufóricos, enquanto ouço Vinícius cantando manso aquele Rio que se perdeu.
Eu queria um texto que me desse clareza de todas essas coisas que eu não entendo, que me revelasse enfim a moral de tudo isso, que me ensinasse a trilhar o caminho (se é que há um caminho), e me deixasse ver onde vão dar todos esses sonhos, todas essas vontades, todos esses sentimentos, toda essa bossa nova e esse rock'n'roll.
Se me perguntassem, eu diria que gostaria de escrever um texto que emocionasse, que tocasse e colocasse dentro de quem lesse um pouco de mim, da minha verdade, e do que acredito. Que explicasse, por fim, de onde vem toda essa inquietação, esse desconforto diante de tudo que é instituído.
Eu queria escrever um texto que me abrigasse do ridículo, que rompesse os rótulos que andam comigo, que alongasse o tempo, que enganasse a morte.
Queria um texto que fosse casa e comida pro resto da vida, para não ter de enfrentar toda essa burocracia de viver, e gastar tempo com essas coisas supérfluas de sentir fome e sede, de ser perecível.
Eu queria escrever algo que fosse como as cartas da Clarice para o Fernando Sabino, ou as crônicas da Rachel de Queiroz. Eu queria a poesia do Drummond, e a delicadeza da Cecília, eu queria a ironia do Machado, e a sutileza do Quintana.
Mas o talento é pequeno e a poesia é pouca, e só me resta, antes do ponto final e do momento em que, pra vocês, eu me calo, preencher de sonhos todas essas lacunas.