segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Episódio 7: Gota d'água

Depois da crise de ansiedade na Redação, Cláudio me recomendou fortemente uma semana de folga, e a mocinha que trabalhava no pequeno gabinete ao meu lado, com os óculos grandes demais para o rosto, e o olhar sempre baixo, me entregou timidamente o cartão de seu terapeuta, dizendo num timbre quase inaudível: "ele é muito bom, Olívia, pode te ajudar."
Nos dias que se seguiram não tive forças para me levantar. Era como se de repente tudo aquilo tivesse convergido para um único ponto, tão infinitamente denso, e essa massa gigantesca e instável que há muito crescia no meu peito, finalmente tivesse ultrapassado o limite da gravidade, e se tornado buraco negro, a sugar para dentro de si toda a luz. Em outras palavras, essa última gota de humilhação tinha sido a que faltava para tornar a realidade definitivamente impossível de se sustentar, e agora ela jazia ali, tranquilamente a me esmagar sobre travesseiros.
Luisa tinha tentado ajudar. No primeiro dia ficou abraçada comigo, vimos dois filmes, ela recusou o convite para sair com os amigos, deixou para o dia seguinte os trabalhos que tinha se organizado para realizar.
Mas à medida que os dias foram passando, fui percebendo que me tornava um peso. Na verdade, aos poucos fui entendendo que há algum tempo eu era um peso. Porque minha infelicidade nesses primeiros 6 meses no Rio de Janeiro, contrastava tão nitidamente com a alegria dela, e a limitava de alguma forma. Eu tinha me tornado dependente demais, ela tinha dito numa das nossas conversas na janela da cozinha, cerca de um mês atrás, com um ar sério, entre tragadas no cigarro de palha. "Eu preciso de tempo a sós com meus amigos, preciso respirar, Olívia, preciso ser eu."
Desde então eu passava muito tempo sozinha naquele apartamento apertado e branco. Tinha começado a desenhar nas paredes para afastar a sensação da brancura vazia. Ajudou um pouco. Numa parede desenhei uma janela que dava pruma paisagem montanhosa e ensolarada. Na outra um retrato do meu pai numa moldura, feito de giz de cera. Desenhei e quando coloquei ali o último traço de cor, senti as lágrimas rolando incontrolavelmente pelas bochechas, me sentei no chão a observá-lo, encharquei minha camiseta com tanta água. Me quedei assim por quase uma hora. Seu olhar confortável na parede era prova irrefutável do meu desajuste.
Eu estava deitada na cama, imersa nesses pensamentos, quando meu celular apitou. Luisa estava avisando que ia naquele bar perto da sede do partido, e que provavelmente não voltava para casa hoje, devia dormir na casa de alguém que morasse mais perto, "a dificuldade do transporte, você sabe".
De repente, as paredes do quarto parecem se debruçar sobre mim, o espaço vai ficando estreito, o ar começa a faltar. Minhas mãos estão suando, o coração acelerado batendo como um tambor ritmado, ensurdecedor, em meus ouvidos. Eu não consigo respirar, eu não consigo respirar. Tento puxar o ar, ele não vem, meu peito arde. Saio correndo. Porta a fora. As luzes são confusas, o rosto das pessoas me assusta. Não sei onde estou.
Não sei por quanto tempo andei. Quando voltei a mim, estava diante do bar sobre o qual ela tinha falado. Tento me acalmar. Entro devagar. Luisa me vê, e empalidece. Só então percebo que estou de pijama, de chinelos, o suor me escorre pela testa. Eu faço menção de ir até ela, mas ela vira o rosto, como se não tivesse me visto. E então eu dou meia volta e saio pela porta.
Dois quarteirões adiante encontro um ponto de táxi, digo o endereço ao senhor de cabelos brancos. Na porta de casa peço para que ele aguarde enquanto subo para pegar o dinheiro. Sempre deixo uma reserva escondida dentro de um caderno para urgências. Pago o senhor e agradeço. Ele me entrega o troco e as palavras, "vai passar, filha, sempre passa". Eu aceno para ele, não sou capaz de responder.
Sento sobre minha cama, abraço meus joelhos e aguardo o amanhecer do dia, que demora muito mais que o habitual.
Quando os raios de Sol adentram o quarto branco, escolho uma roupa, tomo banho, vou até a padaria, pão, um pacote de café, manteiga ainda tem. Volto para casa carregando sacolas, passo o café e como sozinha na cozinha, enquanto rabisco algumas palavras no meu Caderno de Anotar a Vida. Espero dar 8h. E então pego o cartãozinho de papel em minha bolsa, disco os números.
"João, meu nome é Olívia. Recebi a indicação do seu nome por uma colega do trabalho, estou precisando muito fazer terapia".












quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Episódio 6: A bailarina

1, 2, 3, 4.
5, 6, 7, 8.
Sexta posição, brabas.
E plié, gran plié, tendue, arabesque, fouetté.
Gira.
Gira.
Gira. Olha a marcação de cabeça, fiquei tonta, estou tão destreinada, o que eu estava pensando?
"Olívia, as meninas vão entrar agora e depois é você. Aquele xis de fita crepe no chão é o centro do palco, ok? Fica atenta à luz."
Passam por mim apressadas as pequenas bailarinas, com seus 11, 12 anos. Muitas usam aparelhos, algumas ainda mostram algum nível de desproporcionalidade no corpo ossudo, com braços longos demais. Outras tiveram que lidar com a montanha russa de hormônios mais cedo, e ajeitam cheias de vergonha os sutiãs. Elas exauram nervosismo.
Alguém toca meu braço. É Alice, a mocinha que conheci há pouco, enquanto me alongava no camarim.
Ela tinha chegado esbaforida, e antes de iniciar a maquiagem, me ofereceu um salgadinho que a mãe tinha colocado em sua bolsa. Entre uma sombra e um delineador, me contou do menino mais bonito da escola, que não olhava pra ela.
Lhe parecia muito natural, afinal, ele era um desses meninos que todo mundo gosta: mais velho, bom nos esportes, cheio de amigos com os quais ia para o clube nos finais de semana; e ela era só uma menina que gostava de ler e que não era sócia de clube nenhum.
A família de Alice tinha incentivado o ballet para ver se ajudava com toda aquela timidez. "Quem sabe no palco você se solta, minha filha, o que você acha?".
Me vi em Alice e por isso ficamos amigas. Lhe contei alguns segredos de uma mulher de quase 30 anos: esse mocinho logo estará cheio de espinhas. Daqui uns anos, quando você encontrá-lo novamente numa esquina qualquer da vida, cheia de projetos e ambições (coisa de quem sempre gostou de ler) e você vai rir de ter sofrido tanto, vai perceber que agora é preciso muito mais que ser bom nos esportes, é preciso ser um homem com uma mente vasta e muitas ideias para conseguir te impressionar. E olha, o palco ajuda sim com a timidez, mas só se você se divertir. Se aquele momento for seu e de mais ninguém.
Alice toca o meu braço, e suspeito que meu rosto esteja tão aterrorizado quanto o dela. Toda a conversa de mais cedo tinha ido por água abaixo com aquele aviso de que eu era a próxima.
Me recomponho. Pela Alice. Por mim.
Merda pra você, Alice, merda! Se diverte! Vai ser lindo!
E então me lembro da razão pela qual estou aqui. João, meu terapeuta, alguns meses atrás, havia me assaltado com a pergunta cortante: "o que te faz feliz?". Antes que a mente formulasse uma resposta, a boca já disparava "a arte, a arte me faz feliz". "E onde está a arte agora?". "Não está".
E então ele tinha me dado uma tarefa. Com um pouco de descrença porque certamente eu era sua paciente mais indisciplinada. A tarefa era buscar novamente a arte-felicidade em minha vida.
Talvez para surpreendê-lo, talvez por estar tão faminta de alegria, eu resolvi voltar para o ballet. Estar naquela sala de barras e espelhos, pernas, meias, giz, sapatilhas, me colocava em contato com uma Olívia tão diferente. Mais sorridente, mais menina.
As epifanias me assaltavam nos intervalos para beber água, mas, ao mesmo tempo, durante os exercícios a mente se fundia ao corpo, e toda a minha atenção estava na postura, no braço, encaixa o quadril, força um pouco mais a ponta, esse joelho está baixo, assim não consigo me equilibrar. Não importava o quão estressada ou triste eu chegasse na escola, sairia sempre exausta, e sorrindo. Porque a emoção se torna música, ritmo e movimento. E tudo flui para o chão e para o ar.
Era minha vez. Ajeitei o vestido azul cheio de retalhos de chita, costurado pela minha avó a pedido meu, numa das visitas à minha casa. Pela primeira vez ia dançar com meus cabelos soltos. A música pedia. Passei a sapatilha de ponta dentro do pote de giz. E caminhei até o xis de fita crepe que marcava o centro do palco. Me coloquei em posição e levantei bem a cabeça.

A luz do palco não me permite ver nenhum rosto, apenas silhuetas na plateia. Veja, existe uma parede de luz entre o artista e o mundo. Não, não se engane com a expressão da artista. Ela parece dançar para você, mas na verdade dança sempre para si mesma.
Sinto o calor daquela luz invadir meu peito, e se irradiar por meus braços e pernas.
Logo se inicia a marchinha de Dorival Caymmi. Sinto alegria. Vou dançar "Suíte do Pescador". Escolhi essa música porque recentemente estive em São Paulo, no Memorial da Resistência, e nesta ocasião descobri que durante a ditadura militar, os presos políticos estabeleciam entre si a mais sincera e indestrutível solidariedade. E quando um deles era libertado, os outros entoavam essa música, em homenagem à liberdade.
Dancei com a minha alma. Dancei me sentindo parte da história de luta e resistência do meu povo. Dancei por ser mulher. Dancei a frustração do meu emprego. Dancei o desgaste do meu relacionamento. Dancei minha tristeza. Dancei a poesia de Caymmi. Dancei ao amor e à arte.
Quando o silêncio se fez, meus olhos estavam cheios de lágrimas.
Peguei minha bolsa no camarim e saí do teatro. Luisa me esperava do lado de fora, com uma florzinha na mão e meu casaco no braço. Logo que me viu, quando eu ainda estava a alguns metros de distância, começou a bater palmas. "Linda! Maravilhosa! Bravo! Bravíssimo!". Ela sorria com o mesmo sorriso tranquilo que tinha no rosto desde que nos mudamos para o Rio de Janeiro.
Corri até ela, abracei a mulher da minha vida tão forte, beijei, cheirei seu cabelo castanho fino, enchi meus pulmões das flores e dos espinhos de Luisa. E então eu disse o que eu tentei de todas as formas não ter que dizer.
"Lu, eu não posso mais ficar aqui. Estou muito infeliz nessa cidade. Detesto meu emprego, não tenho amigos, não tenho ninguém. Estou aqui há um ano, você não pode dizer que eu não tentei. Não tem nada pra mim aqui. Deixei todos os meus sonhos pra trás pra estar com você, mas não posso mais fazer isso."
Ela baixou os olhos, pegou minha mão, colocou a florzinha detrás da minha orelha, e eu vi no reflexo no vidro de um carro estacionado que suas pétalas brancas contrastavam de uma forma muito bonita com meu cabelo preto. Reparei na mãozinha branca e delicada, as pulseirinhas do senhor do bonfim, a medalhinha pendurada, olhei para a mulher branca ao meu lado no reflexo e no meu peito brotou uma saudade que nunca mais me deixou.

"Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer."






sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Episódio 5: O bar



Depois do choro no abraço do meu pai, e da rápida mensagem ao Pedro ("Pê, eu e a Luisa acabamos de vez, cheguei agora pouco com todas minhas caixas e malas de volta à casa do meu pai. Vou colar lá no Pereira daqui a pouco, se você puder aparecer, ia ser bom ter sua companhia."), passo na boca meu batom vermelho preferido, vermelho sangue vivo, prendo meu cabelo muito preto e cacheado num meio rabo, olho no espelho e me lembro de fazer o que o João, meu terapeuta, havia recomendado que eu fizesse diariamente: olho no fundo dos meus olhos e procuro enxergar nessa moça muito branca, de nariz arrebitado, cabelos rebeldes, dois olhos negros como petróleo, alguém que eu pudesse amar.
Será que se de fato eu me amasse e fosse feliz, sobraria algo para escrever? Porque minha escrita sempre foi o contraponto à minha tristeza, ao vazio no peito que nada preenche. Minha escrita é a peneira frágil que dá a ilusão de proteção, mas que nunca jamais pôde tapar o sol. Por hora não me preocupo, afinal de contas, felicidade e amor próprio são nada mais que uma ideia utópica, em algum ponto muito além do horizonte que se anuncia no exato limite do que a visão alcança.
Bolsa, carteira, meus cartões estão aqui? estão, chave, batom, caderninho e caneta, celular, será que preciso levar carregador? acho que não, blusa de frio, vou amarrar ela aqui na alça da bolsa, pronto, vou andando mesmo.
Caminho na noite escura da cidade onde nasci, pelas ruas mal iluminadas, mas hoje não sinto medo. Caminho e vou rememorando fatos da minha vida, a cada esquina um amor que passou, um término trágico, o moço que me deu adeus no elevador ("você está bem?" "não"), a moça que partiu pro exterior, a mãe que eu nunca tive. Me lembro da trilha que nos levou ao fim, eu me mudando para a cidade dos seus sonhos, o vazio de uma vida a te acompanhar, o emprego naquela redação horrível, minha infelicidade. De volta a minha cidade, novas oportunidades, o trabalho no Brasil de Fato, você na sua velha profissão, o vazio de uma vida a me acompanhar, sua infelicidade. Até descobrirmos que jamais poderíamos viver sob o mesmo teto.
Avisto de longe meu bar, a parede amarela descascada, os velhos bêbados, os universitários sentados nas calçadas, os artistas com seus violões, um monte de gente meio intelectual, meio de esquerda. Adentro meu boteco preferido, abarrotado de estantes com salgadinhos, seus dois freezers velhos, num deles queijos meia cura, catuaba, refrigerante, no outro a cerveja. Atrás do balcão vejo o velho Pereira, e atrás dele produtos de todo tipo, leite, macarrão, sabão em pó, detergente, absorvente, papel higiênico. Este deve ser o único bar do mundo em que os pedidos ainda se anotam à mão numa caderneta.
"E aí, Olívia."
"Oi, Pereira, um litrão pra mim, um copo só."
"Tá certo. Olívia, o pandeiro tá aí hoje, vamos tocar aquela música do Cartola? Pede o violão pros meninos."
"Ô Pereira, não tô muito na onda de samba hoje não, pode ser outra hora?"
Sento na calçada com a minha cerveja. O quadro não é muito diferente do habitual. O brinde, no entanto... Brindo com o universo e com a minha garrafa de cerveja o fim de mais um capítulo da minha vida. Veja, todo final de uma boa história merece um brinde.
Alguma parte de mim te espera. Mantenho os olhos no alto da rua e fico aguardando o momento em que vou ver descendo pela calçada os olhos de girassol, atrás de óculos redondos, um camisetão que você usa como vestido, a jaqueta jeans. Seu jeitinho de cult bacaninha. A ansiedade vai corroendo aos poucos meu peito, como pequenos ratos canibais, antropofágicos.
Ao invés disso, avisto Pedro, chegando com seu cabelo nos ombros, muito fino, quase loiro, um sorriso de dentinhos tortos, um all star e a camisa xadrez. Sinto alívio. Ele sempre me resgata de mim.
Senta comigo, passa o braço em volta do meu ombro, e eu me deixo ali, num silêncio confortável.
"Você quer falar sobre?"
"Não quero não, podemos falar de outra coisa?"
E aí ele começa a me contar sobre suas recentes discordâncias com a teoria Marxista.
"Veja só, reconheço cada vez mais a genialidade do barbudo. Mas tem um ponto que acho incoerente. A teoria do Marx parte do empirismo, da análise da realidade concreta, materialismo, não é mesmo? Criando um método tão bem estabelecido, como ele pode prever algo que foge dessa lógica? Tô falando do socialismo. Não existe nada na realidade concreta, empiricamente falando, que nos leve à conclusão de que o socialismo vai inevitavelmente existir. E aí passei a dividir o Marx em dois: o cientista, e o profeta."
Uma parte de mim sorri porque acho a crítica dele muito inteligente. Mas não estou convencida. Explico a ele meu ponto e vista. Que, talvez uma das coisas mais incríveis do Marx seja que ele não escreve somente dentro de uma perspectiva de criar uma teoria para o mundo acadêmico. Ele escreve pretendendo que seus escritos sejam um passo na modificação da realidade em favor dos trabalhadores. Ele sabe que o simples fato de um grande cientista, como ele, vislumbrar uma realidade de não exploração, de justiça, inspira à luta muitos daqueles que precisam que o mundo seja diferente. Aliás, o Manifesto Comunista era, na verdade, um grande panfleto.
Talvez teoricamente fosse coerente, mas em termos de princípios, como ele poderia esmiuçar o capitalismo, mostrando sua face mais tenebrosa, de exploração, de miséria, de expropriação da força e da vida de bilhões, e não propor absolutamente nada?
"Não sei se o socialismo vai existir, Pê. Mas sei que ele precisa existir, porque a realidade é insuportável. Sei que vou dar minha vida para que isso seja real, porque se não for, nada faz sentido. Não posso assistir da poltrona da minha casa o extermínio da juventude negra nos morros, justificado pela guerra às drogas. As pessoas dormindo, exaustas, no ônibus, vendendo toda a força que possuem para sobreviver e enriquecer uns poucos. Mães adolescentes se despedindo de seus bebês as 6h da manhã, deixando-os com as avós, para ir cumprir o destino de toda empregada doméstica nesse país: um salário péssimo, insuficiente, criar os filhos dos outros e não os seus, chegar em casa e fazer janta pro marido, ver os filhos crescerem para acabarem na mesma: as meninas ficam grávidas, os meninos vão parar na cadeia."
O mundo precisa de uma ruptura. Eu preciso de uma ruptura, preciso mudar. Há tanto para fazer, não posso perder minha vida esperando um amor que foi vendido para as mulheres, para que elas jamais fossem sujeitas da história, protagonistas de suas próprias vidas. Não posso me render a essa ilusão de um felizes para sempre. Sou eu que tenho que ser feliz comigo. E lutar pela libertação do meu povo.
Grito de onde estou sentada "Pereira, cê ainda tá afim de tocar aquela música do Cartola?". E então o velho pega o pandeiro, eu peço o violão emprestado, e as vozes bêbadas do bar começam a entoar:
Alvorada, lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo, é tão lindo, é tão lindo...
Uma decisão começa a se formar em minha mente. Decido que no dia seguinte me entregarei ao ritual que criei para os momentos em que preciso mudar minha vida.
Amanhã vou cortar o cabelo curto.








sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Episódio 4: Olhos de cão azul

https://www.youtube.com/watch?v=DUqejMZZxP0

Pedro tem dois olhos curiosos e uma maneira tão particular de entender o mundo. Particular porque desmancha o objeto de sua atenção em partículas, e vai da parte para o todo, e do todo para a parte. 
Ele procura a essência das coisas, ele deseja desvendar os porquês ocultos em tudo que existe, quer saber do funcionamento de isqueiros, do processo de combustão de todo e qualquer material (Pedro ama colocar fogo nas coisas, e isso já o levou incontáveis vezes a quase-incêndios), dos contratos implícitos da política e tudo o que escondem, das leis que regem o Universo, da física dos astros, das órbitas, dos átomos.
De todas as pessoas que conheço, Pedro talvez seja o ser humano mais desprendido das pré-concepções, das coisas que de início já se consideram verdadeiras, o conjunto gigantesco de pré-supostos que internalizamos sem nunca pensar a respeito. Tudo o surpreende, procura compreender o mundo com imenso espanto. Alma de filósofo.
Pedro carrega uma solidão profunda nos olhos castanhos. Nos conhecemos muitos, muitos anos atrás, e nos conectamos instantaneamente. Naquela época ele era muito mais menino, muito menos triste.
Da conexão das nossas almas, nasceu um acordo implícito, sempre presente, de que cuidaríamos um do outro. Sentíamos um amor que nunca soubemos explicar. Ele era meu melhor amigo e eu nunca soube se o amava como irmão, como amigo, como namorado. Ás vezes ele era meu avô, ás vezes ele era meu filho.
Na época do término do meu relacionamento passávamos ambos por um momento da vida que era um turbilhão. Tendo a pensar que esses momentos são sempre a transição, os pontos decisivos em que tudo muda. Ele estava deixando o curso, confuso com a vida, sem grana, sem saber se voltava para a casa da mãe (numa cidadezinha relativamente próxima), quase sem nenhuma perspectiva. Eu estava de volta a minha cidade natal, deixando a pessoa que considerei ser o amor da minha vida, voltando para a casa do meu pai. A vida girava em torno de nós como furacão.
Me lembro de sentir o coração apertar quando ele me contava das tardes que passava sozinho, dividindo o tempo entre anotar todos os seus sonhos e jogar xadrez consigo mesmo.
Não sei contar quantos dias passei naquela casa, naquele quarto.
Tínhamos mais ou menos uma mesma rotina. Eu chegava, ás vezes íamos no mercado comprar algo para comer, fazíamos café e ficávamos conversando, enquanto ele fumava na janela. 
Nessas ocasiões ele me ensinava coisas surpreendentes, que não interessam às pessoas comuns, como técnicas para ter sonhos lúcidos. 
"É difícil ter consciência de que você está sonhando. Por mais ilógicas que lhe pareçam as coisas no momento que você acorda, no contexto do sonho elas parecem perfeitamente normais. Pra ter um sonho lúcido, você precisa ter um totem, algo que vai ser sua referência para diferenciar a realidade do sonho. A maioria das pessoas conta os próprios dedos (nos sonhos raramente eles são 5, ou são dedos normais). Mas pra isso funcionar, você precisa se condicionar a contá-los mesmo quando está acordada, isso tem que virar um costume, se não você não vai se lembrar de fazer isso quando estiver sonhando."
E então ele me contava do último sonho lúcido que havia tido. Estava num apartamento com a mãe, a avó e outras pessoas desconhecidas. No meio de uma conversa comum, ele se lembra de contar os dedos. Mas seus dedos não são 5 e nem parecem dedos, mais parecem dentes de um pente. De cada mão saiam cerca de 12 deles. Ele corre para o banheiro e se olha no espelho. Seu rosto está todo desfigurado, como num quadro cubista. Ele volta para a sala e grita "nada disso está acontecendo, é tudo um sonho!". E as pessoas começam a se questionar incessantemente "isso é um sonho? isso é um sonho?".
Enquanto ele me guiava por suas histórias incríveis, suas novas ideias, eu me sentia privilegiada por poder dividir a vida com ele, por ter tido permissão para adentrar um espaço que, eu sabia bem, era concedido a muito poucos.
Quando chegava a noite, íamos até a conveniência do posto, que distava dois ou três quarteirões de sua casa, comprávamos algumas cervejas, deitávamos no colchão (ele nunca tinha comprado uma cama) e assistíamos um filme, quase sempre psicodélico, que eu quase nunca conseguia terminar. E ele tirava o computador de cima de nós, me cobria, e se deitava abraçado comigo.
Sinto falta desse abraço. Sinto falta de passar minutos olhando dentro dos olhos dele sem dizer uma única palavra. Sinto falta da honestidade, de me sentir amada e saber que, justamente por isso, cabia ali qualquer coisa que eu quisesse ser.
E éramos, éramos tudo. Nos permitíamos não saber o que éramos.

Planejamos minunciosamente um grande assalto
Sequestramos os ponteiros do relógio
Fizemos o mundo virar do avesso
E nesta lacuna de impossibilidade
Transformada em lugar concreto
(Furo forjado no espaço-tempo)
Concretizamos a promessa
De estarmos sempre juntos

Vivemos eternidades
Dormimos nas estrelas
Inventamos histórias, tantas
De tudo o que somos
Do que é o mundo e o que são as coisas
Escrevemos novas leis, novas regras
Um novo dicionário
Mergulhamos no silêncio um do outro
Nos olhos um do outro
Na pele e no cheiro um do outro
Passamos a morar
Um dentro do outro.

Foi quando o primeiro raio de sol
Adentrou a janela do meu quarto
E me acordou.
Você não estava do meu lado.
Passei a te procurar nas esquinas
Nas padarias
Nos sinais fechados
Onde estão seus olhos?
Olhos de gato
Os meus olhos tristes de cão
Despejam lágrimas
Na minha imensidão
Eterna escuridão
Azul.








domingo, 15 de janeiro de 2017

Episódio 3: Mordaça

Cheguei na Redação depois de quase duas hora divididas entre um ônibus e um metrô incrivelmente cheios, para depois andar duas quadras debaixo de uma chuva torrencial, diante da qual minha pequena e frágil sombrinha parecia uma piada sarcástica.
Entrei no meu pequeno gabinete com o cabelo, muito preto, comprido e anelado, ainda pingando, apesar dos meus esforços inúteis para me secar no banheiro do saguão.
O meu suspiro de insatisfação fez balançar o amontoado de folhas pregadas com durex na divisória logo na minha frente.
Ninguém parecia entender, e era, na realidade, um motivo de deboche, a razão pela qual eu preferia imprimir todas as minhas fontes e referências, e amontoá-las assim, ao invés de simplesmente organizá-las numa pasta no computador.
Não sei bem se o fazia porque realmente a palavra impressa me parecia mais concreta, e gostava de rabiscar, cortar, colar notas, post its no papel; se era porque sou metódica e gosto da sensação tátil e visual de ter em torno de mim todas as peças necessárias para compor o quebra-cabeças do meu texto; ou se se tratava de um mero preciosismo, algum apego a uma ideia de Jornalismo que já não correspondia à minha realidade.
Olhares de desaprovação por cima dos gabinetes. "Como se eu tivesse culpa de estar chovendo! Nem todo mundo tem carro não, se a vida de vocês é fácil, uma notícia que pode surpreender: não é assim pra maior parte dos 200 milhões de habitantes desse país!". E com essa frase desaforada eu quebro meu jejum de brigas no trabalho, jogo no lixo um esforço de semanas tentando construir uma política de boa vizinhança. Eles desviam o olhar e eu saio bufando para encher minha caneca de café.
Vou pensando que realmente preciso parar de repetir a equação básica da minha vida, em que meu nível de frustração é diretamente proporcional à quantidade de café, cerveja e chocolate que irei ingerir por dia.
Sento com meu copo e vasculho minha mente em busca da resposta pra dúvida que me atormenta dia após dia: Em qual momento a escrita que tinha sido meu cais, minha motivação, minha característica mais essencial, passou a ser simplesmente o meu sustento, na prisão das horas que vai se tornando o trabalho na vida daqueles que, como eu, se submetem a empregos frustrantes para sobreviver?
O cômico disso tudo é que sempre havia me achado muito corajosa por ter escolhido uma profissão tão pouco valorizada, em prol do que eu acreditava que me faria feliz. Só não cogitei que o sistema pudesse me engolir de tal forma, que o que foi a estrutura das minhas asas se tornasse a fundação sólida de uma cela, na qual se esquadrinhava o meu tempo desbotado existindo, e não vivendo.
Lanço um olhar de raiva para as palavras na minha frente e espero que elas entendam que não estamos bem. Nem venham tentar reatar comigo na primeira taça de vinho, suas vendidas. Eu sei muito bem de que lado vocês estão - penso comigo e sorrio por um segundo.
Mas sou extraída desse pensamento pela vibração do meu celular: "Olívia, está confirmada sua participação na mesa sobre Democratização da Mídia hoje as 17h na Universidade?".
Está confirmada? Vejamos. Se formos sair daquele anfiteatro para pegar em baionetas, e tomar a sede da grande emissora - voz da elite brasileira, Vossa Alteza Golpista - dando uma prova de heroísmo quase tão brilhante quanto a de João Cândido e seus companheiros, quando apontam os canhões da Marinha para o Rio de Janeiro; Se formos ser um pouco como Marighella e instituir, por um dia, por uma hora que seja, uma nova versão da Rádio Libertadora; Se formos sair dessa mesa e dar nossas vidas para que a comunicação humana seja livre, Com certeza! Conte comigo!
Respiro fundo... Ela já deve estar se perguntando porque as setinhas estão azuis e eu ainda não disse nada: Sim, está confirmada.
Segue o dia chato no lugar monótono em que são desperdiçadas, diariamente, pelo menos 8 horas da minha vida (fora as que são gastas no transporte). Preciso avisar o Cláudio que vou ter que sair mais cedo. Fico me torturando alguns minutos, tentando pensar no que dizer, como dizer. Mas antes que eu consiga me decidir, ele aparece na porta de sua sala pomposa e grita que precisa falar comigo.
- Olívia, você sabe que estamos passando por um momento de crise, não é? Hoje mais cedo tive que demitir a Adriana, você se lembra dela? - Claro que eu me lembro dela, ontem mesmo ela me contou que estava grávida - Pois bem, estamos nos dividindo pra revisar as matérias que ela estava escrevendo. Precisamos fechar a edição de segunda ainda hoje, então todos vão trabalhar um pouco mais. Mas não te chamei aqui só pra isso.- Ele continua - Olha só, Olívia, você escreve bem, você sabe que foi por isso que eu te contratei. Mas aqui nós somos imparciais, suas matérias mais parecem artigos de opinião. Não cabe na nossa revista a opinião política dos jornalistas, e muito menos esse lirismo todo da sua escrita. E é a última vez que temos essa conversa, ok? Estou lutando aqui pra manter seu emprego, mas você precisa me ajudar.

Deixei as sacolas no chão para abrir a porta do nosso pequeno apartamento, e cheguei a tempo de a pegar no flagra assistindo um episódio da série que combinamos assistir juntas.
- Ué, meu bem, a mesa acabou mais cedo?
- Eu não pude ir, o Cláudio me enrolou, ameaçou me demitir, enfim, não quero falar disso hoje, pode ser? Amanhã eu te conto. Trouxe cerveja, vamos tomar?
E nos sentamos na janela da cozinha, como gostávamos de fazer, fumando palheiro e conversando, até os carros irem ficando cada vez mais escassos lá embaixo, na rua agitada. Ela agora tagarelava sobre o livro do Saramago que estava lendo.
No fim da última cerveja, sentia uma certeza muito concreta de ter tomado a decisão certa. Eu detestava aquele trabalho, aquela cidade, mas ela estava ali. No fim do dia o cheiro do sabonete de limão que ela usava enchia meus pulmões e, ao menos nesse momento, parecia preencher tudo. Era difícil acreditar que eu, a pessoa que sempre se entediou com relacionamentos depois de dois, três meses, mesmo após tanto tempo, tanta vida, tantos dias amanhecendo lado a lado, ainda me sentia inebriada...
- Que que cê tá me olhando assim?
Antes que eu pudesse responder, ela esbarrou no cinzeiro que se espatifou no chão. Desceu da janela num pulo para limpar a bagunça de cinzas e cacos na cozinha.
- Eu te amo, só isso.
Me lembro desse momento agora e ainda não consigo saber se ela não me ouviu ou se simplesmente não quis responder.









sábado, 7 de janeiro de 2017

Episódio 2: Indo conhecer Luisa

Conheci Luisa numa festa junina da Arquitetura, anos atrás, quando éramos ainda universitárias. Olhando daqui, nem sei o que eu estava fazendo lá. Ou, se você for dessas pessoas que acreditam que os astros se alinham com o único objetivo de ditar sobre a vida dos minúsculos seres que andam sobre duas pernas na superfície deste planeta, talvez pense que sabe exatamente o que eu estava fazendo lá: eu estava indo conhecer Luisa.
O fato é que ela estava trabalhando no bar naquele turno e por alguma razão, olhei pra ela de longe e soube que precisávamos nos falar.
Veja, Luisa é uma mulher linda, e se houve uma característica constante no nosso relacionamento totalmente inconstante foi que, em absolutamente todos os momentos, mesmo nos piores, todas as vezes que olhei pra ela senti uma vontade irresistível de fugir e ao mesmo tempo, senti o mundo inteiro passando a girar numa órbita diferente, a órbita do universo que gira em torno do astro Luisa.
Apesar disso, ela não tem uma beleza óbvia. Ela não corresponde a padrões muito convencionais. Ela tem o cabelo castanho, meio liso, mas com um certo volume, a pele muito branca, é alta, tem o quadril largo, pernas grossas.
Num outro dia, num outro momento, ela poderia ter passado despercebida, até porque, até então eu nunca tinha me atrevido a tomar a iniciativa de beijar uma mulher, eu tinha sido sempre procurada, sempre beijada.
Neste dia eu olhei pra ela e soube que precisava fazer alguma coisa.
Primeiro fui até o bar e esperei que fosse ela a me atender. Troquei algumas palavras "tudo bem? legal a festa, né?".
Na verdade a festa era comum. Aconteceu numa construção antiga da cidade, que abriga durante a semana algumas atividades culturais, num pátio antigo e descoberto. Corriam luzes e bandeirinhas por quase toda a extensão do teto de céu acima de nós. Em torno, várias barraquinhas, maçã do amor, milho, pipoca, quentão, cadeia do amor. No centro algumas mesas de plástico. Me corrijo: era uma festa junina comum. E eu amo festas juninas (talvez tenha mencionado algo do tipo nessa primeira conversa casual com ela).
E ela foi educada, nada além disso. Me lembro de já nesse momento ter reparado que ela tinha olhos de girassol. Explico: Luisa tem os olhos verdes, mas são também meio amarelados no seu centro. A mancha amarela em torno da pupila forma, em conjunto com o buraco negro do centro dos seus olhos, a imagem exata de um girassol.
E eu fiquei me torturando, pensando em como eu poderia fazer com que os olhos de girassol se abrissem pra mim de tal maneira, que me dessem a permissão para fazer parte do seu universo e imaginário. Foi quando me ocorreu a ideia, já compartilhada por tantos namorados na história, proporcionada pelo timing perfeito que o momento nos proporcionava: pedi a uma amiga que prendesse tanto eu, quanto ela, na cadeia do amor.
E foi quando o destino (no qual não acredito) veio em meu socorro. Já dentro da cadeia, ela soltou um suspiro de insatisfação e disse "não tenho mais dinheiro pra pagar pra sair desse negócio, vou ficar aqui pra sempre", e eu fingi que também não tinha mais nenhuma moedinha. Propus em tom de brincadeira embriagada que nos beijássemos e acabássemos logo com isso. E foi assim que ganhei o primeiro beijo muito rápido e doce, da mulher que seria a fonte das maiores dores e maiores delícias da minha vida nos próximos anos.
Depois disso fiquei em torno dela, conheci os dois amigos com os quais ela estava, um menino e uma menina. Fui saber muito tempo depois que, na realidade, ela e essa amiga estavam num meio clima de romance e que, além disso, outras pessoas com as quais ela ficava nessa época estavam na festa, mas não percebi nada disso, de forma que quando ela propôs que fizéssemos um rolê barato no centro da cidade (que provavelmente significava comprar uma garrafa de vinho vagabundo e bebê-lo na calçada), não titubeei em aceitar.
A amiga da Luisa ficou pouquíssimo tempo conosco, logo disse que estava cansada e que iria pra casa. E nos primeiros momentos que tivemos a sós, quando o outro amigo se afastou para ir ao banheiro, a beijei, dessa vez um beijo demorado, aproveitando cada segundo dos lábios que tinha desejado a noite toda.
Quando abrimos novamente os olhos, o olhar dela era confuso, como se não acreditasse no que tinha acontecido, mas era também feliz. Os olhos de girassol finalmente se rendiam, e me recebiam de braços abertos (ou, talvez, mais ou menos abertos, como eu viria a descobrir depois).

"A vida toda eu esperei por agora
Sentir o teu perfume assim tão de pertinho
Esse teu cheiro que existe só na flora
Naquelas flores que também contém espinhos

A vida toda eu esperei essa glória
Beijar mordendo esses teus lábios de fruta
Boca vermelha cor de amora
Cor de aurora"

https://www.youtube.com/watch?v=_BK3qEKWKQM



domingo, 1 de janeiro de 2017

Episódio 1: O fim

Quando a porta se fechou atrás de mim, senti como se tivesse acabado de levar um soco no peito, no meu ouvido rufavam tambores de um coração que não estava certo se havia algum objetivo no seu esforço interminável, todas as partículas de poeira do mundo se tornaram alguma massa áspera que inspirei com dificuldade.
Por um segundo todas aquelas malas e caixas empilhadas ao meu redor não faziam nenhum sentido. Era como se eu fosse mais uma vez a pessoa sorridente em preto e branco, num porta retrato logo no topo de uma caixa entreaberta, olhando para o que eu haveria de me tornar no futuro. E era inacreditável.
O pior de todas aquelas malas e caixas é que eu não tinha idéia do que fazer com elas ou comigo mesma.
Me quedei assim por alguns minutos. Reparei cada canto daquele corredor que costumávamos amar. O tapete vermelho no chão de madeira, as paredes brancas. Andei até a sacada comum que liga todos os apartamentos, de onde vemos o pátio central. Sentei no banco de madeira que comprei pra nós, logo embaixo da nossa janela.
Faziam 14 dias que eu não fumava, desde que estouraram os fogos, na meia noite do primeiro dia deste ano. Joguei todos os maços que tinha em casa no lixo, mas salvei um único palheiro. Agradeço ao meu eu ingênuo do passado esse consolo. Um vazio tão profundo só poderia ser preenchido com fumaça.
Ascendo o cigarro com o isqueiro de plástico do Batman que você comprou pra mim entre risadas embriagadas, numa banca de jornal vagabunda, dia desses voltando para casa. Não eram nem oito horas da noite. E me dou conta de quanta coisa vou ter que esconder em caixas no armário para tentar não viver em torno da idéia de que sou uma mulher de 30 anos que tem um amor frustrado e a menor idéia do que fazer da vida.
Me passa pela cabeça te suplicar que me ame e me aceite de volta. Mas então me lembro de que nos últimos 6 anos vivi justamente suplicando, e te seguindo, e reorganizando infinitamente minha vida para que coubesse num relacionamento pelo qual eu lutava sozinha. Eu sabia que nem o amor imenso que agora esperneava no meu peito, nem a certeza pungente de que não vejo e não quero ninguém mais do meu lado que não seja você, nem isso podia compensar a perspectiva de ser figurante na minha própria vida.
O cigarro acabou e eu deixei o isqueiro em cima do banco, junto com o porta retrato. Era o começo do que eu já sabia que seria uma longo processo de dizer adeus. Chamei o elevador e olhei pela última vez pra nossa porta de madeira, alta, de duas folhas. Empilhei as caixas, dentro do elevador, enquanto mantinha um pé na porta, fazendo uma quase-acrobacia para impedir que ela se fechasse. Coloquei meu mochilão no ombro e peguei a mala de couro que sua mãe me deu. Chamei o táxi.
O motorista simpático me ajudou a carregar minhas coisas. No caminho ele contou que trabalhava no transporte coletivo da cidade e nas horas extras fazia uns bicos como taxista. Eu perguntei como é que ele conseguia. Da minha recente convivência com as lideranças do sindicato dos trabalhadores do transporte urbano eu tinha uma noção de que se tratava de um emprego extremamente cansativo, com pouquíssimos períodos de folga.
Enquanto ele me contava sua história, de como passou de motorista de caminhão quando era mais moço, para motorista de companhias de ônibus que faziam viagens interestaduais, e por fim  o trabalho no transporte coletivo, eu digitava uma mensagem curta no whatsapp que avisava que eu estava indo pra casa e explicava sucintamente a situação.
"A passagem de ônibus deve aumentar daqui uns dias né? Todo ano é assim.". E ele respondeu que ouviu falar algo do tipo. Fico divagando sobre como poderíamos mobilizar mais pessoas, de uma forma mais organizada e menos espontaneísta, para lutar contra o aumento. Ir e vir deveria ser um direito garantido.
Me lembro dos estudantes secundaristas que conheci recentemente e do dia em que me disseram que não podiam ir a uma reunião porque não tinham dinheiro para o ônibus (mas que talvez eles pudessem ir se eles "jumpassem" - entrassem no ônibus ou na estação sem pagar a passagem). Senti um desconforto estranho. Já sou militante há muito tempo, mas até aquele dia nunca a questão do transporte tinha me parecido tão concreta. 
Quando cheguei à rua que mais conheço, vi que um velho barrigudo, de óculos e barbas brancas me esperava na porta. Corri para ele e só quando meu pai me abraçou forte foi que caíram as primeiras lágrimas.