domingo, 11 de dezembro de 2016

Acaso

numa madrugada embriagada
inesperada
de música, de rua
de passos cambaleantes pela calçada
de olhos brilhantes que não me disseram nada
na cadência das músicas da minha infância
em novas vozes e novo dedilhado
um encontro com os planos do passado
nada foi como eu esperava.
por outro lado
quanta poesia eu encontrei
nas esquinas dessa caminhada
de me descobrir inteira
me construir inteira
ser minha própria morada
minha companhia
minha guia
minha estrada.



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Para administrar a solidão

Não contabilize amizades
Não crie expectativas
Procure não coçar o que está em carne viva.
Não releia velhas cartas
Evite quartos escuros
Procure trancar as memórias em lugares seguros.
Não vá olhar fotos antigas
Não se pergunte sobre o sentido da vida
Exclua qualquer música que não possa ser ouvida.
O olhar deve estar sempre voltado para frente
Boas doses de séries, filmes e qualquer outro entorpecente
Da mente.
Procure continuar cumprindo suas obrigações
Procure não tomar grandes decisões
Nos dias ruins.

A raiva pode ser eventualmente necessária
Para driblar os efeitos da saudade
Mas cuidado
Ela demanda o controle
Da própria agressividade.

Construa com as velhas mágoas o seu escudo
- preferível um coração mais prevenido
E se for possível
Não deixe a amargura tomar conta de tudo.

Se não houver nenhuma palavra que não seja cortante
Respire fundo por um instante
O silêncio é sempre o último refúgio
E quando não restar outro subterfúgio
Melhor manter-se muda.

A poesia ajuda
Contra as crises de dor aguda.




segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Pedras, noites e poemas

Pulsam as palavras em português no meu sangue
Correm nas minhas artérias as histórias dos velhos caminhoneiros
Seus valiosos ensinamentos e sua ousadia de se fazerem poetas
Contra todas as probabilidades.
Na frustração e na perspicácia do meu pai
Abobalhado diante da televisão
"É golpe! É golpe!"
Vejo um avô que sem nenhum cultura
Achou que era uma boa ideia encher o filho de enciclopédias
E ele se tornou militante quando ainda era secundarista
Primeiro a se formar na família.
Nos primeiros anos da minha vida, meu pai me contava histórias de beija-flores
Que carregando água no biquinho contra a imensidão de um incêndio na floresta
Explicavam, sem vacilar: "eu estou fazendo a minha parte!"
Hoje desacredita, amargurado, dos beija-flores de nosso povo.
Diz cheio de angústia que a esquerda vai demorar mais 100 anos para voltar a governar
E que ele vai morrer sem ver o país com que sonhou.
Eu ás vezes também não sei se o beija-flor vai ver renascida a floresta
Mas eu sei, com a certeza do amor que me habita
Que ela ressurgirá
Porque a vida é sempre capaz de romper as cinzas da infertilidade.
Porque restam sempre dentro do chão as sementes.
Porque um caminhoneiro ensinou ao seu filho a poesia que não aprendeu em nenhuma escola
E esse filho me ensinou que era preciso lutar sempre contra o império da morte
Eu sei que da criatividade encantadora do meu povo
Nascerá o mundo que já meu velho anunciava
Quando ainda não tinha cabelos brancos
Nos seus mais belos sonhos.  

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Água

Já percebeu como a água invade tudo?
Agora, por exemplo, tsunami invadindo minhas pálpebras
E elas ficam túrgidas.
Sempre que choro madrugadas imagino
Água preenchendo o espaço entre as células dos meus olhos
Somos feitos de partes tão pequeninas
E tudo neste mundo é tão mais água que terra
Queria eu que ela pudesse lavar e levar embora
Todas essas dores.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Às paredes do DADU

Homens e mulheres sem história são incapazes de entender de onde vieram. São pessoas sem forma, sem senso crítico, que reproduzem como gravadores o que lhes ensina a mídia, que vivem para o que lhes ordena a Indústria. 
Como tornar a vida mais lucrativa? Trabalhe 80 horas semanais! O Homem sem história trabalha sem questionar.
O sentido máximo de Alienação é esse: o trabalhador que não reconhece o produto de seu trabalho.
O produto de seu trabalho, no entanto, é o próprio Mundo. Quem fez o Mundo com a força dos próprios braços não sabe que ele é seu, não usufrui dele e aceita que lhe roubem o valor do que produziu.
É a mulher deprimida que chega ao nosso consultório, exausta e vazia, porque lhe ensinaram que nasceu para ser mãe, que o trabalho serve para sustentar os filhos, e agora que eles saíram de casa, ela não tem mais razão de existir. Essa Mulher não entende a história que a forjou. Não compreende porque isto lhe é imposto. Não entende o seu lugar no mundo.
Conhecer a própria origem é a única maneira de caminhar para frente, de não repetir os erros que foram cometidos no passado. Quem não sabe de onde vem, não entende quem é, não entende o mundo em que vive, anda a esmo.
Porque nos apagaram a memória, alguns defendem o retorno à Ditadura Militar. Não sabem que centenas de pessoas foram assassinadas, torturadas, sem ter direito a um único julgamento? Não sabem que a seres humanos foram infligidas dores inimagináveis, seres humanos cujo grande crime foi lutar pela democracia? Não sabem. Eles não têm memória.
E é por isso que me dói tanto a tentativa de apagar a história do DADU.
Ouvi dizer que pintarão de branco as paredes do D.A.
Pra quem nunca entrou ali, preciso explicar: as paredes do DADU são repletas de frases, frases que estudantes diversos escreveram à medida que foram passando pelo Diretório.
Aquelas frases já existiam quando, 4 anos atrás, eu passei pela primeira vez por aquela porta e conheci o único lugar que cuidaria um pouquinho de mim, que seria um pouco de refúgio, um pouco de carinho e muito aprendizado, neste caminho árido que escolhi trilhar.
Não era incomum que um professor, um estudante de residência, um médico já formado adentrasse a salinha e ao olhar para as paredes apontasse: “aquela ali fui eu que escrevi!”. Nos contava, então, alguma história inusitada de um tempo que já passou, que existe hoje somente num traço de tinta desbotado na parede.
Todos aqueles fragmentos têm uma origem. São pedaços de pessoas que foram se tornando lembrança. São centenas de mãos dando a sua contribuição a um Diretório que foi verdadeiramente uma construção coletiva. Aquelas paredes são a consciência e a memória do DADU.
Aquela lugar é vivo, fala comigo através de centenas de mãos, me conta a sua história.
Estão tentando emudecê-lo para sempre.
Mas eu não esqueço.
Se a tentativa é de nos apagar, apagar a história do DADU, se a tentativa é de exterminar o pensamento discordante, escrevo hoje para dizer que estou aqui. E que, como eu, muitos outros ainda guardam dentro de si alguma cor que o DADU lhes imprimiu.
Não vamos deixar de existir. Somos a história viva do DADU. Trazemos o DADU na pele e na alma, nas nossas histórias, em quem somos e nos tornamos, nos médicos e médicas que somos e seremos.
Sei que posso falar por todos eles quando digo: reivindicamos, hoje e sempre, o direito à Memória. Não somos homens e mulheres sem história.

domingo, 26 de junho de 2016

Meu coração é Sem Terra

Meu coração é Sem Terra
Porque a verdade é que meu povo sempre viveu na guerra
E esses heróis teimosos
Heróis anônimos
Munidos da maior coragem do mundo
Se Levantaram contra o império cruel do latifúndio
E decidiram não se acostumar jamais com a escravidão.
Teimosia de plantar, colher, dividir o chão.
Se a semente de um novo mundo descansa
Na palma da nossa mão
Se estamos nos propondo a dividir da casa ao pão
Pela realidade que se constrói de grão em grão
Se essa é uma escolha que se leva pro caixão
O meu coração
Meu coração é Sem Terra

sábado, 11 de junho de 2016

Nada-ser

Remédio amargo
Vou entendendo que sou sozinha.
Em alguns momentos aproveito o conforto
De ser o único ser pensante dentro de mim.
Nesse casulo quente que é o meu corpo
Minha mente vaga universos.
Invólucro
Limita as minhas possibilidades metafísicas
Enquanto enche de cores e sinestesias
O território quadrado da razão de Descartes.
Às vezes gosto da perspectiva de que meus olhos
Sejam a única lente gravando
A beleza que eu vi no mundo
E que minha consciência seja a única telespectadora
Das emoções inebriantes
Que encharcam meus nervos.
Ás vezes o que vejo me deslumbra de tal maneira
Que prefiro não empobrecer o sentimento com palavras.
Ás vezes gosto da incompreensão do que é ser outro
E da incompreensão dos outros acerca do que eu sou.
E vou me descolando das outras vidas
Aprendendo a deixá-las partir.
Em outros momentos sinto uma ausência espinhenta
Alguma coisa que está ali, mas que é só falta
Como seria possível dimensionar o que não existe?
Ás vezes parece que a falta é a maior parte do que sou
Como se eu estivesse repleta de espaços vazios
E porque o nada é infinito
Não posso caber em lugar algum.






terça-feira, 31 de maio de 2016

Para Giovana

Porque eu te encontrei no meu caminho
Não posso negar que haja algum tipo de mágica nesse universo
Pois eu te encontrei tão desavisada
Como quem, sem nada esperar
Acaba tropeçando na própria sorte.
Você apareceu na minha vida assim
Meio caída subitamente no meio do palco
Quando eu dei por mim
Giovana já inundava cada pedacinho de tudo que eu faço
Com seus lencinhos coloridos
Com seu dentinho que falta
Meio feito fada, num dia perdido
Um dia florido como as flores que você tinha no cabelo
Como as flores doídas daquela música que a gente gosta
E eu te vi florescer
De meninas que éramos
De brigadeiros ingênuos
Fomos encontrando nossa força, nossa liberdade, nossa luta
E você foi se tornando esse fenômeno da natureza.

- Seus cabelos foram crescendo e se rebelando
Na exata medida da sua rebeldia-

Você mora nas minhas fotos
Nas minhas manhãs
Na maior parte das minhas risadas.
Minha irmã de alma,
Se não existe eternidade
Te prometo minha lealdade
Nesse breve sopro que dura uma vida.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Da filha do seu melhor amigo. Para o velho contador de histórias.

Ao velho de barbas brancas que me conquistou com suas histórias
Eu desejo que essa ferida incurável sare logo
Queria ser hoje a médica que você acreditou que eu seria
Médica do impossível
Queria poder remendar seu coração
Queríamos todos, pai, mãe e irmã
Te colocar no colo e poder te ninar

Ao velho de barbas brancas com um sorriso sempre doce
Uns óculos pendurados no nariz, um barrigão
E tantas invenções de mudar o mundo
Eu desejo nos meus sonhos de menina
Que em breve você possa se contar outras histórias
Possa ser professor paciente de si mesmo
Possa encontrar mais uma das suas soluções inusitadas
E então, recuperar, com uma risada, o sentido de tudo isso
Que agora me escapa.

Velho, eu não sei porque é que a vida te fez essa injustiça
Hoje sou toda lágrimas, somos.
A morte é um rolo compressor inexorável
E cada vez que ela cruza o meu caminho
Tudo se desmancha um pouco.

Não tenho remédio algum pra te oferecer.
Por isso te ofereço o meu amor.

sábado, 16 de abril de 2016

Pra você nunca me deixar

Quando você parte de dentro dos meus braços
Meu coração se parte um pouco
E é como se um pedaço meu estivesse morrendo
As flores que coloriam e perfumavam minha alma
Murcham de repente, ficam ranzinzas
Cada parede desse quarto chora
E as páginas dos meus cadernos se enchem de lágrimas
Quando você me deixa assim
Tudo no mundo parece estar me dando adeus
As pessoas no ônibus me olham com olhar de pena e despedida
As panelas sem sopa de abóbora protestam, indignadas
- Elas mandaram te perguntar se você não sente remorso
por nos abandonar assim tão vazias -
Em todo lugar falta alguma coisa
É uma sensação como quando a gente sai de casa e acha que esqueceu algo para trás
Mesmo quando me sinto feliz
Me pergunto o que é que está sempre segurando um pouco o meu sorriso.
As pessoas do mercado sentem a nossa falta
Disseram que ninguém mais anda assim pendurada no carrinho
Ninguém come frutas roubadas à olhos vistos
Enquanto passeia alegre entre as estantes.
Eu me vejo obrigada a vestir aquela minha roupa
Que eu costurei pros momentos difíceis
Assumo minha pose mais altiva
Que, cá entre nós, carrega tanta dureza...
A dureza de quem tem o amor pendurado num retrato
Dentro de uma moldura antiga.
Preciso que você volte pra poder abandonar esse casulo
Pra poder abrir de novo as minhas asas
E devolver ao mundo todas as suas delicadezas.
Quando você chegar
Prometo que eu te mimo como você quiser
Que te faço dormir
Que te faço café
Que te faço assinar uma cláusula de nunca mais me abandonar.








quarta-feira, 6 de abril de 2016

De me sentir feliz

Pressentia a sua chegada
De uma fresta de janela eu captava uma hora ou outra
Um fragmento seu
Algum brilho refletido de cabelo
Algum vestígio de poeira arrastado pela saia comprida
Algum ruído de risada deixada no ar
Algum abalo rítimico de um coração acelerado
Algum mistério recém descoberto num olhar cheio de ansiedade
Senti sua falta
Senti falta desse nosso casamento cheio de poréns
Dos nossos cafés conforto
Da nossa existência costurada
Da surpresa que reveste tudo que existe
Do mais simples ao mais complexo ser que anda sobre essa terra
De ver poesia no arroz com feijão de cada coisa cotidiana
De juntar as mãos e agradecer pela oportunidade de estar aqui
Da resistência amolecida, cada vez mais entregue, de te receber na minha vida
Não me deixe mais assim
Sem falar nada, sem se despedir
Há muito te esperava
E te recebo novamente de braços abertos
Felicidade.

terça-feira, 15 de março de 2016

Disfarce

vivo de dizer o que não deveria ser dito
o mundo, constrangido-indignado
me manda engolir de volta as palavras
olhos assustados, arregalados, se desviam
pés atravessam a rua, não passam mais na porta
sou uma ameaça
esse sentimento rasgado
ALERTA! PERIGO!
é preciso fugir da verdade assim cuspida
lhe calar com a indiferença
disfarce
mais uma vez, escolho ser em palavra meu eu mais cru e dilacerado
porque eu não deveria dizer
verbalizar tudo o que sou e não deveria ser
mas eu cruzei a linha do blasé e me tornei. eu.
disse
digo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Hemorragia

Eu tenho uma dor dentro do peito que passou a morar comigo
Não sei se é solidão, falta de um amigo
Não sei se foram más escolhas, alguma espécie de castigo
Não sei se estou fugindo da raia, renegando o meu destino
Ou se nunca houve nenhum plano e eu me acomodei nesse caminho
Não sei se nas linhas da minha mão há algum tanto de carinho
Não sei se eu não soube achar a rosa ou se a vida é só espinho
Não sei se sou mais corajosa ou se saí de vez do trilho
Não sei se mergulho de uma vez na vida ou se puxo o gatilho
Não sei se a revolução nunca foi possível ou se eu é que já não acredito
Não sei se já houve alguma salvação ou se não passou tudo de um mito
Já não sei dizer bem o que ainda alimenta o meu espírito
Eu continuo respirando mas já não sei pelo que sigo
Talvez eu esteja olhando demais pra mim, pro meu próprio umbigo
Ás vezes eu só queria me encolher toda em algum tipo de abrigo
Eu sinto tanta saudade do meu melhor amigo.

Sei que tenho um grande amor frustrado
Esse abandono imenso marcado
em brasa na minha pele.
Tenho toda essa gente que de repente se vai
Tenho a ausência da minha mãe e a expectativa esmagadora do meu pai
Essa dificuldade de me amar, de me bastar, esse medo de ser esquecida
Tenho todos esses não's, todo esse vazio, pouca grana, muitas dívidas
Essa teimosia, essa completa falta de norte
Uma tonelada de dúvidas
Preciso de distrações, preciso conhecer pessoas, preciso mudar de cidade
Tenho rinite, verrugas, preguiça, a coluna torta
Eu tenho uma namorada morta
E esse oceano de saudade.





segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Baile de máscaras

Me sinto desajustada
Enquanto caminho por entre as vitrines de sorrisos decorativos.
Num jogo caleidoscópico
Em que pessoas inteiras se perdem
Nos reflexos partidos de sua própria imagem virtual
E como feitiço tornam-se máscaras
Ninguém me enxerga.
De que me valem estas presenças surdas a tudo que digo?
Presenças que também não me contam histórias
Estão ali mas não estão de fato
Porque não me tocam e não me permitem tocá-las
São impermeáveis e ocas.

Pois prefiro a solidão sozinha
Que viver a solidão no meio de rostos que mais me parecem
Invólucros plastificados
Manequins
Companhia de plástico e verniz
Condicionada a rir mecanicamente nos momentos felizes
E virar o rosto diante de qualquer tristeza.
Se constrangem em rubor de blushes artificiais
Quando sangro publicamente
Quando quebro as leis e choro...

Está proibido ser triste neste carnaval.







sábado, 6 de fevereiro de 2016

A velha e o nada

https://www.youtube.com/watch?v=DUqejMZZxP0

Ando pensando que a vida é uma sucessão de nadas.
Se esses nadas se tornam algo, é porque atribuímos significados.
Quando, no entanto, a tristeza rouba a energia que nos permite criar sentidos, e a crueza da vida arranca abruptamente toda a proteção meticulosamente bordada sobre as pontas afiadas da realidade, sobra a secura sem fim desse mundo áspero. Tudo fica vazio.
Viver, nesses dias, tem sido um esperar eterno, não sei pelo quê. Um esperar eterno pelo que sei que não volta.
Sento e espero por um futuro que, com sorte, será tão bom quanto algum momento no passado.
Rezo para que logo seja novamente capaz de me enganar. Talvez algum novo amor me devolva os óculos coloridos de distorção do que vejo. Talvez alguma crença numa mudança que hoje sei impossível.
A humanidade falhou e eu falhei com ela. Sou um fracasso, somos. Esse sentimento de que tudo deu errado... esse tanto que sonhamos, a vida que pensamos, aquela casa, aqueles filhos, aquele mundo que era melhor, que era um lugar pelo qual valia a pena lutar, dar a vida por, tudo isso deu em lugar nenhum.
Se eu fosse como as outras pessoas, deveria só aceitar que acabou e recomeçar. Mas eu dou demais de mim e quando prometi o eterno, sem querer me peguei falando a verdade.
Se o eterno acabou sendo um ponto final logo ali, dois passos à frente, eu fiquei então com um eterno nada depois dessa vida que morreu.
No passado, eu limitei a felicidade futura, eu dei a felicidade futura praquela promessa de depois. Não houve depois e agora tudo está perdido.
Tudo está perdido.
Eu estou perdida.


Continentalidade

Na maior parte do tempo procuro olhar para a sua personalidade terra-firme
sua continentalidade
como algum tipo de cais, calmaria
para minha alma tempestuosa
para o meu coração em brasa
como um emplastro pras queimaduras que me causo
com a minha vitalidade quase destrutiva
com essa vontade de viver que é tão grande
que beira a neblina das alucinações
que beira o salto sobre o precipício
Na maior parte do tempo procuro olhar pra sua sensatez
pra sua sobriedade
como algum tipo de lastro
que me ajuda a manter a firmeza
quando tudo chove em mim
quando sou somente tempestade
e trovejo.
Algo que me segura, que impede que eu me lance inteira
que eu me afunde instantaneamente
e me aprofunde demasiadamente neste sentimento
um constante lembrete de que não devo me envolver tão rápido
de que o meu pavio não deve queimar tão de repente
de que preciso me preservar
de que preciso me manter sólida, independente de
tudo.
Tenho encarado assim, como um aprendizado
como um desafio e uma forma de estar de frente com o que é mais difícil
com o silêncio que jamais fez parte de mim
e jamais pude compreender.
Porque eu sou palavra, poesia, vida em movimento
eu sou dor, alegria e amor transbordando por todos os poros
eu sou a vontade que brota do útero
em flor e desejo.
Eu sou o batom escuro demais, o tênis sujo inusitado
os anéis enferrujados, o cabelo que de supetão se torna mais curto.
A sua solidez
eu gostaria que me fizesse menos fluida e mais concreta
para que eu sangrasse menos
para que eu pudesse erguer meus escudos
e pudesse descobrir alguma forma de viver o amor com tranquilidade
sem tanta urgência
sem precisar me consumir tanto, tudo, sempre tudo.
Na maior parte do tempo, procuro mergulhar na sua tranquilidade
na sua risada leve
no seu olhar que oferece um sorriso de ternura
e que, numa análise mais cautelosa
percebo que oferece também uma ruga de preocupação
(porque no seu mundo há sempre a vírgula da crueza da realidade
a vírgula que te coloca em contato com a terra).
Na maior parte do tempo, procuro aprender a me sustentar
observando as bases firmes da sua engenharia
sua lealdade, sua coragem
sua certeza de um caminho que nunca se desvia
sua persistência nos seus próprios rumos
os que você traçou no seu chão.
Há, no entanto
dias em que eu só queria que você pudesse aprender um pouco comigo também
a ser mais água, mais ar
a jogar tudo pro alto e inventar a liberdade
a usar a criatividade pra ir tão além dos padrões da vida rotineira
pra expandir os próprios horizontes
e encontrar o sabor da intensidade
ao enganar o dever
e cavar no tempo apertado
o tempo de viver.