domingo, 30 de janeiro de 2011

Citações

"Jogava punhados de terra nos bolsos e os comia aos grãozinhos, sem ser vista, com um confuso sentimento de felicidade e raiva, enquanto adestrava suas amigas nos pontos mais difíceis e conversava sobre outros homens que não mereciam o sacrifício de que se comesse por eles a cal das paredes. Os punhados de terra faziam menos remoto e mais certo o único homem que merecia aquela degradação, como se o chão que ele pisava com as suas finas botas de verniz em outro lugar do mundo, transmitisse a ela o peso e a temperatura do seu sangue, num sabor mineral que deixava uma cinza áspera na boca e um sedimento de paz no coração."
- Gabriel García Márquez; "Cem ano de solidão"

"...que em qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera."
- Gabriel García Márquez; "Cem ano de solidão"

"Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melosos, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos."
- Caio Fernando de Abreu; conto "Transformações": livro "Morangos Mofados"

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Jazz

Aqui jaz...
Meu eu despedaçado.
Jaz aqui minha cor, meus sorrisos mais despreocupados.
Jaz aqui a certeza do que sou (fui).

Grande perda... Me perdi!
Jaz... Minha vida que já foi Blues...
Hoje morre em Jazz.

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

...

"É que o outro move montanhas dentro de você: tá errado!"
Estas palavras, estas especialmente, eu gostaria de ter ouvido.
Sem mais por hoje.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Desconexo

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague!

Sabe quando um texto é tão bom que te deixa bêbada, chapada, grávida, fodida e feliz? Ao mesmo tempo um soco na cara e masturbação do espírito. Ai, se eu pudesse escrever assim! Ah, se a poesia bastasse! Ai ai ai, se o pão de cada dia fosse ideológico...
Desculpem-me se não faço sentido, é que tenho tido uns problemas para lidar com a realidade.
Ah, se eu pudesse pagar os honorários do analista! ("Pra nunca mais ter que saber quem eu sou"). E se São Paulo não fosse tão longe... Ai ai ai, se a felicidade fosse mais barata! E se meus sonhos fossem menos absurdos... Ah, se o amor bastasse!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ao amigo que ganhei de presente

"Eles não estão falando comigo", foi o que você me disse assim que me viu, com os olhos cheios de lágrimas, e eu que estou tão acostumada a te ver sempre sorrindo, me assustei ao encontrar tais lágrimas nos teus olhos - é como se você fosse um tipo diferente de pessoa, um tipo de pessoa que tem uma crise de riso quando lhe pingam no olho aquele colírio que arde muito no oftalmologista, "é que dói DEMAIS!", foi o que você me contou sorrindo.
Eu te abracei ao te encontrar assim, com lágrimas nos olhos. Eu não sabia é que a recompensa da vida por esse abraço seria imensa, muito maior até do que eu merecia.
Se me perguntar, digo que foi ali que ficou dito entre nós que estaríamos sempre um pelo outro, um contrato tão natural que jamais precisou ser falado.
E foi assim, você abriu o seu segredo pra mim e me contou uma parte da sua vida que quase ninguém sabia, você me deu de presente sua confiança e em troca eu te dei a minha, e foi você que passou as tardes comigo quando eu senti que estava sozinha.
E foram muitas tardes, se não foram tantas é que foram infinitas. Conversávamos sobre tudo, sobre um tudo que talvez não seja aceito pelo resto do mundo, mas se fazia em sinceridade confortável entre nós.
Hoje eu entendi porque é que me sinto tão bem com você. É que eu não tenho medo de que você ria de mim, não tenho vergonha. Quando você ri, é um riso tão carinhoso, tão compreensivo, tão espontâneo, que me faz sorrir com você. Mas não me podo, não me edito, deixo fluir em palavra tudo o que me passa pela cabeça, nas nossas horas intermináveis, falando, falando, falando... E você entende.
Se eu pudesse descrever-nos em um momento, seria nesta última tarde que passamos juntos, tomando café enquanto eu desenhava com seus lápis aquareláveis e você me contava das suas composições, ou mais tarde, jantando o macarrão que você fez, enquanto discutíamos o que haveria de ser Deus exatamente. Ou então naquele olhar cúmplice uns tempos atrás, um olhar que dizia mil coisas que só nos dois compartilhávamos, você sabe bem a que me refiro.
Te guardo. Guardo sempre o conforto de estar com você, guardo o carinho imenso que lhe dedico e que você me retribui sempre, guardo a nossa diferença que não deixa de ser semelhança, essa coisa de caber e não caber no mundo, de ser parte e não ser, de ser uma outra coisa completamente adversa, e ao mesmo tempo, ser somente o que todo mundo é.










domingo, 16 de janeiro de 2011

Brain storm

Não quero ninguém, não quero pertencer nem quero que me pertençam, não quero ser, não quero ter de ser, não quero o futuro, e nesse instante, trago o presente com todas as forças.
Quero parir a minha liberdade ideológica.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Sonho

Valores convencionados por minha sociedade
Muito pouco duráveis, são decompostos
Tornam-se pó como os meus ossos
Como meu ser,minha poesia, meu sonho

Passava frente à biblioteca municipal, num fim de tarde de uma sexta-feira, quando fui surpreendida por uma imagem inusitada: uma menina sentada nos degraus laterais do velho prédio, saboreava um sonho gordo e cheio de creme.
Tinha o rosto inchado, claramente de chorar e dormir afogada nas próprias lágrimas.
Comia o sonho e lambia lentamente os dedos daquele açúcar de confeiteiro que lhe ia grudando aos montes na pele.
Outros transeuntes passavam e olhavam-na com curiosa desaprovação - foi quando entendi: detestavam-na.
Detestavam-na pois comia o sonho, e não só comia-o maravilhada, como parecia não dar ouvidos ao que o mundo com ferocidade gritava a plenos pulmões em suas orelhas - talvez tivesse ficado surda-muda do mundo - olhava absorta o nada. E nos seus olhos passavam brincando o passado, o presente, o futuro que não existe, o sentido que falta em todas as coisas.
Ela era uma bagunça explícita, mas conservava no olhar a paz desta placidez doída.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A ponte

Eles estão sentados na ponte.
A ponte é o meio, o nada entre algum lugar e outro lugar.
Eles estão sentados na ponte.
Às vezes, durante um lapso de tempo, quem olha de longe vê duas crianças, com o olhar cheio de cor e euforia, tão vívido quanto o movimento das asas de uma borboleta que voa pela primeira vez após sair do casulo.
Num outro segundo são dois velhos, cansados do mundo e de si mesmos, compartilhando o segredo de um silêncio tão entrelaçado quanto possível.
Eles se deixam ali, por um tempo que parece a eternidade, e tudo bem.
Porque não há na vida o que deve ser, há somente o que é.
É bonito que seja como é: eles estão sentados na ponte.
Temendo sentir o infinito (às vezes não dá pra saber o quanto os ombros podem suportar) e o mundo... O mundo é um corretor imobiliário ambicioso, que teima em lotear tudo quanto existe. No mundo é preciso que as coisas tenham nome, e antes que se perceba, sentimentos são desmembrados na burocracia dos formalismos, ou se não, vão sendo transformados em concreto, em muro, onde as outras pessoas podem cuspir e escrever seus julgamentos.
Eles estão sentados na ponte porque na ponte eles podem ser o que não devem ser, eles podem ser o que eles são, e o que não são, eles podem ser essência, e a leveza de estarem juntos.
Eles estão sentados na ponte porque há outras formas de se estar junto, de se estar perto, porque às vezes o distante é infinitamente mais próximo, às vezes o não dito é infinitamente mais palpável, às vezes o não tocar é a forma mais bonita de se atingir a alma.
Na ponte não há tempo, não há regras, a ponte é um pedaço de existência à parte do mundo.