terça-feira, 6 de junho de 2017

Alvo Revolucionário

Atravesso a rua de peito aberto
Morro de medo e ao mesmo tempo
Quero me lançar a todo corte
Esse ano o que mais ouvi é que sou uma mulher forte
De fato, nunca abri mão da minha voz
(Custasse o que custasse - e custou sempre muito caro)
Só recentemente entendi a violência que segue em meu encalço
A violência que desperto
Por não ocupar o lugar certo
Por jamais ter usado salto
(Que mulher teria pernas para assim se manter de pé num palanque?)
Salto pra mim é um pulo alto
Aquele que me desafio a dar a cada instante
Para atingir o alvo, alvo revolucionário.
Alva revolucionária
Alto, revolucionária!
Está traçado o meu calvário.
Reneguei todas as coisas que me eram destinadas
Não quis ser submissa ou educada
“Ela é uma pessoa difícil”.
Convenhamos, há que se ter na mão uma enxada
Para enfrentar todo terreno que se desbrava
Modifico o chão que piso.
Detesto a resiliência
Disse Maria Rita que o castigo último para minha desobediência
É a negativa firme àquela idéia enraizada
De ser amada.
Gioconda vem me abraçar
“Faz o amor a ti mesma”
Não esqueço. 
A você, irmã, ouço e obedeço.
Como Simone, cresci num mundo de homens
Cresci num mundo de poucos.
Me concederam, por sorte, um lugar entre as doutoras...
Vejam que heresia!
Nesses últimos 23 anos sendo Sofia
O único lugar que me interessa de fato
Está ao lado 
Das mulheres trabalhadoras.