terça-feira, 25 de setembro de 2012
Meu menino
Olha por nós, ó Pai.
Ora, Deus, ora por nós, antes de adormecer em seu berço.
Se não existires fora...
Existas dentro de mim, querido Deus.
Se não te deram a luz, Deus menino
É hora de nascer.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Se um dia eu me encontrar...
Se um dia nos cruzarmos na rua, finja que não me conhece.
Poderíamos fazer como todas as outras pessoas: nos encontraríamos um dia no supermercado e falaríamos da família, você contaria das viagens artísticas que anda fazendo e eu te falaria de como meus filhos são brilhantes e arteiros, comentaríamos da velha turma, eu diria que encontrei um deles na fila do pão e você cruzou com um outro na entrada do cinema, e então diríamos que temos mesmo que nos ver, talvez até trocássemos telefones, prometeríamos nos encontrar, o que no fundo, jamais aconteceria. Você colocaria sua calça para lavar com o meu telefone no bolso, e o seu ficaria pra sempre no porta-luvas do carro.
Não, eu não suportaria. Não suportaria dissimular tão hipocritamente o fato de que descumprimos inegavelmente a nossa promessa de um futuro juntos, não saberia falar do preço da gasolina enquanto há tanta saudade no peito, e se não houver saudade, a consciência de que alguma coisa deu errado, um monumento de pedra na memória.
Não. Se um dia esbarrar comigo, não diga nada. Não quero saber da sua vida, não quero contar-lhe da minha. Me olhe por um instante e saiba, saiba de todos os momentos, de todas as lágrimas, saiba da dor da separação, saiba de como nos humilhamos, de como nos odiamos, de como nos amamos até o segundo em que tudo morreu, lembre-se de mim então pelo que eu era, ainda que você nem mesmo possa me reconhecer. Guarde no seu coração esse pequeno luto, esse pedaço secreto de existência jamais imaculado, ainda que enterrado. Guarde-o como algo divino, sagrado. Não, não diga nada. Siga andando, não comente com ninguém que me viu, e dali uns dias, esqueça.
Poderíamos fazer como todas as outras pessoas: nos encontraríamos um dia no supermercado e falaríamos da família, você contaria das viagens artísticas que anda fazendo e eu te falaria de como meus filhos são brilhantes e arteiros, comentaríamos da velha turma, eu diria que encontrei um deles na fila do pão e você cruzou com um outro na entrada do cinema, e então diríamos que temos mesmo que nos ver, talvez até trocássemos telefones, prometeríamos nos encontrar, o que no fundo, jamais aconteceria. Você colocaria sua calça para lavar com o meu telefone no bolso, e o seu ficaria pra sempre no porta-luvas do carro.
Não, eu não suportaria. Não suportaria dissimular tão hipocritamente o fato de que descumprimos inegavelmente a nossa promessa de um futuro juntos, não saberia falar do preço da gasolina enquanto há tanta saudade no peito, e se não houver saudade, a consciência de que alguma coisa deu errado, um monumento de pedra na memória.
Não. Se um dia esbarrar comigo, não diga nada. Não quero saber da sua vida, não quero contar-lhe da minha. Me olhe por um instante e saiba, saiba de todos os momentos, de todas as lágrimas, saiba da dor da separação, saiba de como nos humilhamos, de como nos odiamos, de como nos amamos até o segundo em que tudo morreu, lembre-se de mim então pelo que eu era, ainda que você nem mesmo possa me reconhecer. Guarde no seu coração esse pequeno luto, esse pedaço secreto de existência jamais imaculado, ainda que enterrado. Guarde-o como algo divino, sagrado. Não, não diga nada. Siga andando, não comente com ninguém que me viu, e dali uns dias, esqueça.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Houve, Há, Haverá
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade
Dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
Já não sei bem o que penso da vida, já não sei bem qual é o meu objetivo. Por suposto, não é a felicidade plena, como um fim. Já entendi que não se chega a ela jamais.
Ouvi dizer que o objetivo da vida é a própria vida, que não se chega a lugar algum, que o "fim" que buscamos é o próprio caminho. Mas no fim do caminho, o que haverá? Quando se chega em fim à beira do precipício, e tudo que se pode fazer é cair, o que haverá além de nossos pés? Ganharemos asas?
Busco acreditar, mas temo jamais saber com certeza.
Sei de minha limitações, físicas e espirituais, hoje mais que nunca. Sinto, pulsante em mim, minha pequenez, sei cada vez mais que sei cada vez menos, e que tenho os meus medos no meu encalço, sempre à espreita.
E por fim a morte. Será possível, Poetinha, recebê-la como uma velha amante, como a mais nova namorada? Você conseguiu, enfim?
Espero comunicação de além túmulo.
De sua leitora cheia de admiração e saudade de quem jamais conheceu...
etc, etc, etc.
http://www.youtube.com/watch?v=s1_byQDZRM0
Poeta, Poetinha vagabundo
Quem dera todo mundo fosse assim feito você
Que a vida não gosta de esperar
A vida é pra valer, a vida é pra levar
Vinicius, velho, saravá!
De transfigurar a realidade
Dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
Já não sei bem o que penso da vida, já não sei bem qual é o meu objetivo. Por suposto, não é a felicidade plena, como um fim. Já entendi que não se chega a ela jamais.
Ouvi dizer que o objetivo da vida é a própria vida, que não se chega a lugar algum, que o "fim" que buscamos é o próprio caminho. Mas no fim do caminho, o que haverá? Quando se chega em fim à beira do precipício, e tudo que se pode fazer é cair, o que haverá além de nossos pés? Ganharemos asas?
Busco acreditar, mas temo jamais saber com certeza.
Sei de minha limitações, físicas e espirituais, hoje mais que nunca. Sinto, pulsante em mim, minha pequenez, sei cada vez mais que sei cada vez menos, e que tenho os meus medos no meu encalço, sempre à espreita.
E por fim a morte. Será possível, Poetinha, recebê-la como uma velha amante, como a mais nova namorada? Você conseguiu, enfim?
Espero comunicação de além túmulo.
De sua leitora cheia de admiração e saudade de quem jamais conheceu...
etc, etc, etc.
http://www.youtube.com/watch?v=s1_byQDZRM0
Poeta, Poetinha vagabundo
Quem dera todo mundo fosse assim feito você
Que a vida não gosta de esperar
A vida é pra valer, a vida é pra levar
Vinicius, velho, saravá!
sábado, 7 de julho de 2012
À minissaia
Ele disse que ligaria... E ela esperou.
Lá pelas tantas, cansada de andar de um lado para o outro, resolveu convidar o senhor Johnnie Walker para a festinha solitária.
José Cuervo já estava no fim...
"Johnnie, meu caro, tú y yo!"
Horas depois, nem o whiskey conseguiu enganar a ausência. "Mas que diabos, por que é que ele não liga?"
O pé impaciente a batucar o chão do apartamento já se tornara um samba desagradável aos ouvidos dos vizinhos de baixo.
Começou com a fossa. Trocando em miúdos pode guardar as sobras de tudo que chamam lar, a sombra de tudo que fomos nós, as marcas de amor nos nossos lençóis.
E passou para a ira. Quando chegar o momento esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro.
No fim do cd, é se recompor ou se recompor. Olhos nos olhos quero ver o que você faz, ao sentir que sem você eu passo bem demais.
"Pois, ora, o senhor há de ver quem é que ri por último."
Tirou o salto do armário, o batom vermelho já estava a postos e -ah!- a minissaia. Pronta, devidamente munida de suas armas mais letais: rua!
Galgar o mundo com pernas vacilantes e nuas, assim vingamos todos os ex-namorados, ex-maridos, ex-amantes, ex-amores.
Minissaia nossa de cada dia, a ti agradecemos o poder que nos confere. Amiga leal, companheira fiel que jamais nos abandona, ainda que a abandonemos, certas vezes, temporariamente, em algum quarto, algum banheiro, algum tapete...
Lá pelas tantas, cansada de andar de um lado para o outro, resolveu convidar o senhor Johnnie Walker para a festinha solitária.
José Cuervo já estava no fim...
"Johnnie, meu caro, tú y yo!"
Horas depois, nem o whiskey conseguiu enganar a ausência. "Mas que diabos, por que é que ele não liga?"
O pé impaciente a batucar o chão do apartamento já se tornara um samba desagradável aos ouvidos dos vizinhos de baixo.
Começou com a fossa. Trocando em miúdos pode guardar as sobras de tudo que chamam lar, a sombra de tudo que fomos nós, as marcas de amor nos nossos lençóis.
E passou para a ira. Quando chegar o momento esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro.
No fim do cd, é se recompor ou se recompor. Olhos nos olhos quero ver o que você faz, ao sentir que sem você eu passo bem demais.
"Pois, ora, o senhor há de ver quem é que ri por último."
Tirou o salto do armário, o batom vermelho já estava a postos e -ah!- a minissaia. Pronta, devidamente munida de suas armas mais letais: rua!
Galgar o mundo com pernas vacilantes e nuas, assim vingamos todos os ex-namorados, ex-maridos, ex-amantes, ex-amores.
Minissaia nossa de cada dia, a ti agradecemos o poder que nos confere. Amiga leal, companheira fiel que jamais nos abandona, ainda que a abandonemos, certas vezes, temporariamente, em algum quarto, algum banheiro, algum tapete...
domingo, 27 de maio de 2012
Saudade
Teu olho que brilha e não para
Tuas mãos de fazer tudo e até
A vida que chamo de minha
Neguinha, te encontro na fé
Ás vezes no meio da aula, ou enquanto ando pela rua, me vem a lembrança de um dia tão lindo que passei ao seu lado, um apenas, entre a infinidade de dias tão lindos e tão intensos que tenho para lembrar, que ás vezes me fazem sorrir, e ás vezes me fazem chorar.
E eu te lembro sempre tão linda, sempre me fazendo sorrir, me dando força, em meio a esse seu amor infinito, em meio à essa sua capacidade de se doar inteira.
Estendo o meu amor, então, até o infinito, para que você possa sentir.
E aos poucos vou aprendendo a sentir a sua presença, dentro dessa ausência perpétua.
Aos poucos vou aprendendo a conversar com você, sem ouvir a sua voz.
Aos poucos vou aprendendo a ver o seu olhar, em todas as coisas bonitas que me lembram você, sem poder olhar pra esses seus olhos amendoados que me fazem tanta falta.
Hoje eu sei o significado de saudade, hoje seu nome é saudade, e saudade é o seu nome.
Tuas mãos de fazer tudo e até
A vida que chamo de minha
Neguinha, te encontro na fé
Ás vezes no meio da aula, ou enquanto ando pela rua, me vem a lembrança de um dia tão lindo que passei ao seu lado, um apenas, entre a infinidade de dias tão lindos e tão intensos que tenho para lembrar, que ás vezes me fazem sorrir, e ás vezes me fazem chorar.
E eu te lembro sempre tão linda, sempre me fazendo sorrir, me dando força, em meio a esse seu amor infinito, em meio à essa sua capacidade de se doar inteira.
Estendo o meu amor, então, até o infinito, para que você possa sentir.
E aos poucos vou aprendendo a sentir a sua presença, dentro dessa ausência perpétua.
Aos poucos vou aprendendo a conversar com você, sem ouvir a sua voz.
Aos poucos vou aprendendo a ver o seu olhar, em todas as coisas bonitas que me lembram você, sem poder olhar pra esses seus olhos amendoados que me fazem tanta falta.
Hoje eu sei o significado de saudade, hoje seu nome é saudade, e saudade é o seu nome.
domingo, 20 de maio de 2012
Blanco
estrangeiro na minha alma
impossibilidade concretizada
insistentemente nos meus sonhos
significado surpreendentemente descoberto
no fundo negro da minha vida entendo-te
claro, alvo, translúcido
resplandecentemente
você
http://www.youtube.com/watch?v=jOTckSYX8Pg
impossibilidade concretizada
insistentemente nos meus sonhos
significado surpreendentemente descoberto
no fundo negro da minha vida entendo-te
claro, alvo, translúcido
resplandecentemente
você
http://www.youtube.com/watch?v=jOTckSYX8Pg
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Manifesto do antiquário vanguardista: pela não-violação dos meus segredos
Respeito aos símbolos e aos significados.
Respeito ao silêncio guardado entre dois olhares.
Respeito à poesia - nossa - de cada dia.
Respeito à expressão livremente livre.
Respeito aos nossos erros.
Respeito às nossas lágrimas.
Respeito ao sincero exagero.
Respeito à sangria da verdade.
Respeito à não-necessidade de ser.
Respeito à falta de sentido.
Respeito ao sentimento e ao sentimentalismo.
Respeito às lembranças.
Pelo fim da inoportuna e recém descoberta insensibilidade.
Para matar a mágoa.
Respeito ao silêncio guardado entre dois olhares.
Respeito à poesia - nossa - de cada dia.
Respeito à expressão livremente livre.
Respeito aos nossos erros.
Respeito às nossas lágrimas.
Respeito ao sincero exagero.
Respeito à sangria da verdade.
Respeito à não-necessidade de ser.
Respeito à falta de sentido.
Respeito ao sentimento e ao sentimentalismo.
Respeito às lembranças.
Pelo fim da inoportuna e recém descoberta insensibilidade.
Para matar a mágoa.
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