terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ilusão

Há algum tempo vejo-a minguar, vejo-a apagar-se, como uma estrela que começa a morrer. A cada dia olhos mais fundos, cabelos mais ralos, costelas mais proeminentes. Em certo ponto, surgiram marcas arroxeadas por todo o corpo...
Marcas fizeram-se feridas, cada vez maiores, sangrando incessantemente.
Um dia ela desistiu de lutar, abriu o peito e entre lágrimas sem fim, deixou-se desfazer em um mar de sangue.
Restou um amanhecer completamente vermelho e um buraco no chão.
Sinto falta de tê-la comigo. Me despi de sua presença, e assim me despi também de minha pele, fiquei em carne viva.
Agora resta lançar-me aos espinhos da vida sem qualquer proteção. E esperar que algum dia haja também a rosa. E que talvez essa rosa traga consigo o perfume das coisas, que se perdeu no momento de seu último suspiro.
Visite-a hoje no túmulo em que repousa, deixei flores cinzas, murchas e sem cheiro.
Li mais uma vez em sua lápide:
"Mal deu os seus primeiros passos neste mundo...
E o Mundo não fez cerimônia em se mostrar
Sorriu com seus olhos bonitos e seus dentes podres
E disse que a vida era uma faca de dois gumes
Ela não pôde aguentar... Desfaleceu-se!
Morreu, minha pequena e frágil Ilusão".

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Clara

Não choro mais, não vale a pena
Me ensinaste que a vida é doce, pequena
A tua Clara-preta companhia me faz serena
Avante contra solidão, munidas de poemas

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O que parte e o que é partido

Para Mateus, Victor, Ana, Gi, Isabela, Phelipe, Mariana

Dou parte!
- Me falta uma parte
Saudade que me parte
Me aperta
















sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Flores murchas

A velha de preto faz sua oração
em uma mão um terço
O menino escuta a vozinha da velha, a outra mão
embala o berço

Longo vestido preto
costurado de viuvez
Calvário de vida que jaz
arrependida do que não fez

Rugas são abismos
cicatrizes do tempo que pra sempre vai
saudade da meninice de tempos idos
do cheiro da comida do pai

A mão da velha embala o berço
e os olhos do menino são a derradeira alegoria
ela conta avarenta nas contas do terço
seus momentos de alegria

O menino sorri alheio, imerso
no seu mundo do tamanho de dois braços protetores
do muito que penso, só sei dizer em verso
amores, temores, dores, flores







quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Homo sapiens sapiens


23 cromossomos paternos e 23 maternos. Do amor de dois eis que surge uma célula. Alguns nanômetros de extensão, tão frágil, tão improvável, tão pequeno...
Um se torna dois, dois se tornam quatro, quatro se tornam oito, que se tornam dezesseis.
Estruturas que não passam de um aglomerado de elementos químicos tomam vida, e lá estão elas, seguindo uma receita tão bem estruturada: faça-se um braço! uma perna! um pulmão! um coração! um cérebro!
E do que era invisível, do que era desprezível possibilidade contra infinita probabilidade de falha, se constrói um indivíduo, um "eu" complexo, de artérias, veias, órgãos, pensamento, sangue, sentimento... Do sentimento humano, o mundo tal como conhecemos. Tudo o que saiu do homem e teve como única função preencher o vazio, a inexorável e imensamente assustadora consciência de nossa própria existência. Homem que sabe que sabe. Que sabe de seu próprio fim.
Embora olhando para dentro eu saiba, cada vez mais, da beleza inscrita nas linhas da existência, e embora eu me sinta completamente abestalhada diante da perfeição de um corpo que surgiu do invisível e que trabalha, com tamanha eficiência, com tamanha beleza e sutileza, para sua própria sobrevivência e a de sua espécie, ao olhar para fora o espanto é ainda maior: tudo isso é tão pouco, é nada.
Do amor de dois eis que surge uma célula. E um outro serzinho que é pedaço de um e de outro, amor que se faz concreto, que se faz independente de quem amou, que anda, que fala, que dissemina amor, se quiser.
Eu pensei, durante tanto tempo, que encontraria a poesia nos livros...






quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Encruzilhada

O que me parecia colorido era gris
o que aparentava permanência era giz
e tudo o que ostentava tenacidade por um triz
desmorona com o vento
como árvore sem raiz
nunca mais se ouvirá
a súplica infeliz
explico com clareza, está em tudo o que fiz:
indiferença travestida de amor
eu nunca quis.