sábado, 1 de junho de 2013

Metade

Tensionamos a corda ao extremo absurdo
para ver como e quando ela arrebenta
para testar dos nós
e de nós
o limite
(meu olho no teu é convite).
O proibido, moço dos olhos penetrantes
dança e ri da nossa tentativa de fidelidade
- dilema da nossa vontade.
Enquanto isso, arregalados
nos fitam os grandes olhos da vaidade
atiçando nossa crueza
nossa maldade.
O que há de selvagem
e até mesmo grutural
no que somos
sugere todo tipo de erotismo
sedutor abismo
e caímos inevitavelmente no cinismo.

Não somos.
Não sendo, somos.
Somamos.

Somos a mais cortante traição
E a mais inegável sinceridade.
Somos mania
hipocrisia
metade.







sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ressaca

Trago
fumaça tóxica
no meio de construções que não deixam ver o sol
lixo da civilização civilizada
Trago
no peito a vontade inútil de fazer qualquer diferença
dilema intrínseco de ser agulha num palheiro
Trago
fumaça mágica de dar asas à mente
da irreverência que precisa se ostentar em gesto
Trago
a infantilidade de ainda possuir sonhos
numa realidade camuflada
travestida
incoerente
Trago
o vazio existencial próprio da minha geração
Trago minhas palavras
trago outras palavras
profundamente
puxo o ar até que elas ganhem os meus pulmões
e espero que me invadam
me transbordem
me expliquem enfim
o que não sou capaz de entender

Realidade indigesta




terça-feira, 14 de maio de 2013

Carência

É... há dias em que não há razão, simplesmente não há razão.
não há perdão. nem para os meus,
nem para os seus pecados.
então por que você não vem?
deita aqui do meu lado...

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Hora. Ora.

O som do mar a encher de vida pés cansados, pernas que outrora estiveram entrelaçadas a outras pernas, e que, com o tempo, aprenderam a cartilha do caminhar só.
O mar dos olhos, o mar da presença tranquila, que deixa descansar, esse mar a encher a alma novamente, ensinando de novo a sonhar.
Ser um pouco criança, e ter fé.
Viver não contém uma só gota de racionalidade, não se tratam de probabilidades.
Tudo é um brotar e morrer. Morrer para brotar, brotar para morrer.
Boiar então, no oceano infinito, infinitamente vulnerável às marés, ao sol, ás vontades de entidades muito maiores, ainda que essas entidades sejam somente - cheio de majestade - o acaso.
Beleza no que é belo, e colher cada um desses instantes. Fazer sentido nunca foi necessário.
Reverenciar o que é incontrolável, viver o indizível como a mais bela poesia.
Se curvar diante do inexorável.
E abraçar cada um dos defeitos, cada uma das escolhas, cada uma das responsabilidades, cada uma das consequências como quem recebe um filho pródigo novamente nos braços cheios de saudade.
Imagens que não dizem nada, livre associação de palavras, livre sentimento.
Liberdade.
Amém.

domingo, 28 de abril de 2013

Mesquinha

Com a corda no pescoço
olho para o mundo de dentro do poço
ambicionei a sabedoria de quem sabe dizer adeus
mas ainda sou só um cão
que rosna para o olhar que ameaça
seu tesouro insosso

Difícil largar o osso...



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Quarta-feira à noite

Meu estômago está me incomodando novamente...
Tudo por aqui anda cheio de egocentrismo, eu sei bem
Sei também que ando viciada em rabiscar uns versos
Será que nunca mais escreverei em prosa? 
Well, well... Vamos tentar.
A releitura de textos meus de mais de dois anos atrás me levou à constatação de que, apesar das mudanças radicais de cenário, estive sempre mais ou menos na mesma.
Sempre a filha da puta da dor de estômago... 
Cerveja demais, café demais. 
E o senhor, raríssimo-leitor-gatinho-pingado, vem-me então cheio de recriminações, recomendações, um dedo em riste! 
Ora, veja bem, se o fim é sempre o mesmo, me deixe tomar meu cafézinho em paz que está fazendo frio...



sexta-feira, 19 de abril de 2013

Armadura

Em alguns momentos vejo-o ausentar-se de si mesmo.
Nesses momentos seus olhos negros fitam algum lugar no vazio.
Pressinto, então, sua alma em busca do que lhe faça sentir
Enfim o essencial que lhe falta.
Entendo tudo isso com uma lucidez doída.
Ás vezes você é cúmplice, outras vezes carrasco.
E ao mesmo tempo que se entrega, se fecha, vai embora.
E me faz duvidar.
Eu me pego caminhando entre cacos do seu sentimento
De pés descalços.
Entre tantos versos, palavras jogadas entre nós
Em meio a tudo que silencia
E até mesmo quando há qualquer promessa de futuro
Espero sempre o seu adeus.
Porque, de alguma forma, você sempre se despede.
E jamais despe a armadura que o protege e o imobiliza.