Na maior parte do tempo procuro olhar para a sua personalidade terra-firme
sua continentalidade
como algum tipo de cais, calmaria
para minha alma tempestuosa
para o meu coração em brasa
como um emplastro pras queimaduras que me causo
com a minha vitalidade quase destrutiva
com essa vontade de viver que é tão grande
que beira a neblina das alucinações
que beira o salto sobre o precipício
Na maior parte do tempo procuro olhar pra sua sensatez
pra sua sobriedade
como algum tipo de lastro
que me ajuda a manter a firmeza
quando tudo chove em mim
quando sou somente tempestade
e trovejo.
Algo que me segura, que impede que eu me lance inteira
que eu me afunde instantaneamente
e me aprofunde demasiadamente neste sentimento
um constante lembrete de que não devo me envolver tão rápido
de que o meu pavio não deve queimar tão de repente
de que preciso me preservar
de que preciso me manter sólida, independente de
tudo.
Tenho encarado assim, como um aprendizado
como um desafio e uma forma de estar de frente com o que é mais difícil
com o silêncio que jamais fez parte de mim
e jamais pude compreender.
Porque eu sou palavra, poesia, vida em movimento
eu sou dor, alegria e amor transbordando por todos os poros
eu sou a vontade que brota do útero
em flor e desejo.
Eu sou o batom escuro demais, o tênis sujo inusitado
os anéis enferrujados, o cabelo que de supetão se torna mais curto.
A sua solidez
eu gostaria que me fizesse menos fluida e mais concreta
para que eu sangrasse menos
para que eu pudesse erguer meus escudos
e pudesse descobrir alguma forma de viver o amor com tranquilidade
sem tanta urgência
sem precisar me consumir tanto, tudo, sempre tudo.
Na maior parte do tempo, procuro mergulhar na sua tranquilidade
na sua risada leve
no seu olhar que oferece um sorriso de ternura
e que, numa análise mais cautelosa
percebo que oferece também uma ruga de preocupação
(porque no seu mundo há sempre a vírgula da crueza da realidade
a vírgula que te coloca em contato com a terra).
Na maior parte do tempo, procuro aprender a me sustentar
observando as bases firmes da sua engenharia
sua lealdade, sua coragem
sua certeza de um caminho que nunca se desvia
sua persistência nos seus próprios rumos
os que você traçou no seu chão.
Há, no entanto
dias em que eu só queria que você pudesse aprender um pouco comigo também
a ser mais água, mais ar
a jogar tudo pro alto e inventar a liberdade
a usar a criatividade pra ir tão além dos padrões da vida rotineira
pra expandir os próprios horizontes
e encontrar o sabor da intensidade
ao enganar o dever
e cavar no tempo apertado
o tempo de viver.
sábado, 6 de fevereiro de 2016
sábado, 12 de dezembro de 2015
Geminiana
Perdoem vocês se não posso ser diferente do que sou
eu tentei, juro que tentei, ser menos vermelho escândalo
travei guerra civil com meu corpo, no meu sangue
e perdi.
Assim sou melhor, quando não podo minhas flores indecentes
de perfumes vencidos, cheias de cores, insetos e carinhos
quando permito que existam em tranquila contradição
as nuvens negras de minha alma tempestuosa
o meu coração em brasa
as cicatrizes na minha pele
das queimaduras que me causo
com a minha vitalidade quase destrutiva
com essa vontade de viver que é tão grande
que beira, que beiro a neblina das alucinações
que beira, que beiro o salto sobre o precipício.
Há momentos em que tudo chove em mim
quando sou somente tempestade
e trovejo.
eu tentei, juro que tentei, ser menos vermelho escândalo
travei guerra civil com meu corpo, no meu sangue
e perdi.
Assim sou melhor, quando não podo minhas flores indecentes
de perfumes vencidos, cheias de cores, insetos e carinhos
quando permito que existam em tranquila contradição
as nuvens negras de minha alma tempestuosa
o meu coração em brasa
as cicatrizes na minha pele
das queimaduras que me causo
com a minha vitalidade quase destrutiva
com essa vontade de viver que é tão grande
que beira, que beiro a neblina das alucinações
que beira, que beiro o salto sobre o precipício.
Há momentos em que tudo chove em mim
quando sou somente tempestade
e trovejo.
sábado, 31 de outubro de 2015
O terceiro olho
me parece que seja algum tipo de clarividência
se é aura ou essência
sinto coisas que não sei explicar
posso amar pessoas estranhas
de outras não querer mais que distância
pressinto o fim dos ciclos
o fim das coisas
me relaciono com o mágico do que paira
aceito seus carinhos, suas advertências
suas lições doloridas
empresto meus olhos pra achar tudo bonito
e então sinto que algo me acompanha
se emociona por detrás dos meus olhos
numa lágrima, em cilhos que se encostam
faço minha oração
toco o infinito
acredito
na minha intuição.
se é aura ou essência
sinto coisas que não sei explicar
posso amar pessoas estranhas
de outras não querer mais que distância
pressinto o fim dos ciclos
o fim das coisas
me relaciono com o mágico do que paira
aceito seus carinhos, suas advertências
suas lições doloridas
empresto meus olhos pra achar tudo bonito
e então sinto que algo me acompanha
se emociona por detrás dos meus olhos
numa lágrima, em cilhos que se encostam
faço minha oração
toco o infinito
acredito
na minha intuição.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
O antipoeta
Te vejo dormir no reflexo da tela do computador e entendo. Você é um reflexo. Uma aparição. Uma imagem bonita que eu nunca vou poder tocar.
Você é o capítulo do momento.É essa história, minha história sendo escrita. Você é o símbolo da guerra que declarei a tudo e todos. Da desconstrução pela qual preciso passar pra continuar seguindo. Tantos tijolos não servem mais. O chão há de ser reasfaltado. Nesse chão não caminho mais. Afundo.
Você é o antipoeta. E eu, que sempre fui amante fiel das palavras, traio-as agora. Me apaixonei pela anti-poesia. Você não só não escreveu nunca nenhum verso, como declarou guerra a todos eles. E vive de ser objetivo. Pragmático. Se é, é. Se não é, não é. A racionalização é o método. Controlar, programar, saber prever o fim. Se preparar. Não ter pertença, não depender, não precisar. Não. Se. Apegar. Aparecer e desaparecer. Não criar padrões. Discordar.
Você nasceu ironicamente no mesmo dia que eu. Nasceu pra ser a negação de tudo o que sou. E como toda negação, é também uma afirmação de mim. Você sou eu, sendo o meu oposto. As duas caras de gêmeos.
E é assim que você vai passar na minha história. Sendo exatamente o que é. Meu reflexo e meu oposto. Minha imagem invertida. Sua esquerda é a minha direita e minha direita sua esquerda.
Ao me ver assim tão crua, ao me encontrar comigo e me tocar, literalmente, talvez eu entenda. Talvez eu possa seguir em frente. Talvez eu possa começar a ser um pouco o que sempre almejei. O contrário do que sou.
Pois termina assim. Faço como você e prevejo o nosso fim.
Você é o capítulo do momento.É essa história, minha história sendo escrita. Você é o símbolo da guerra que declarei a tudo e todos. Da desconstrução pela qual preciso passar pra continuar seguindo. Tantos tijolos não servem mais. O chão há de ser reasfaltado. Nesse chão não caminho mais. Afundo.
Você é o antipoeta. E eu, que sempre fui amante fiel das palavras, traio-as agora. Me apaixonei pela anti-poesia. Você não só não escreveu nunca nenhum verso, como declarou guerra a todos eles. E vive de ser objetivo. Pragmático. Se é, é. Se não é, não é. A racionalização é o método. Controlar, programar, saber prever o fim. Se preparar. Não ter pertença, não depender, não precisar. Não. Se. Apegar. Aparecer e desaparecer. Não criar padrões. Discordar.
Você nasceu ironicamente no mesmo dia que eu. Nasceu pra ser a negação de tudo o que sou. E como toda negação, é também uma afirmação de mim. Você sou eu, sendo o meu oposto. As duas caras de gêmeos.
E é assim que você vai passar na minha história. Sendo exatamente o que é. Meu reflexo e meu oposto. Minha imagem invertida. Sua esquerda é a minha direita e minha direita sua esquerda.
Ao me ver assim tão crua, ao me encontrar comigo e me tocar, literalmente, talvez eu entenda. Talvez eu possa seguir em frente. Talvez eu possa começar a ser um pouco o que sempre almejei. O contrário do que sou.
Pois termina assim. Faço como você e prevejo o nosso fim.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Olhos de cão (azul)
Planejamos minunciosamente um grande assalto
Sequestramos os ponteiros do relógio
Fizemos o mundo virar do avesso
E nesta lacuna de impossibilidade
Transformada em lugar concreto
(Furo forjado no espaço-tempo)
Concretizamos a promessa
De estarmos sempre juntos
Vivemos eternidades
Dormimos nas estrelas
Inventamos histórias, tantas
De tudo o que somos
Do que é o mundo e o que são as coisas
Escrevemos novas leis, novas regras
Um novo dicionário
Mergulhamos no silêncio um do outro
Nos olhos um do outro
Na pele e no cheiro um do outro
Passamos a morar
Um dentro do outro.
Foi quando o primeiro raio de sol
Adentrou a janela do meu quarto
E me acordou.
Você não estava do meu lado.
Passei a te procurar nas esquinas
Nas padarias
Nos sinais fechados
Onde estão seus olhos?
Olhos de gato
Os meus olhos tristes de cão
Despejam lágrimas
Na minha imensidão
Eterna escuridão
Azul.
Sequestramos os ponteiros do relógio
Fizemos o mundo virar do avesso
E nesta lacuna de impossibilidade
Transformada em lugar concreto
(Furo forjado no espaço-tempo)
Concretizamos a promessa
De estarmos sempre juntos
Vivemos eternidades
Dormimos nas estrelas
Inventamos histórias, tantas
De tudo o que somos
Do que é o mundo e o que são as coisas
Escrevemos novas leis, novas regras
Um novo dicionário
Mergulhamos no silêncio um do outro
Nos olhos um do outro
Na pele e no cheiro um do outro
Passamos a morar
Um dentro do outro.
Foi quando o primeiro raio de sol
Adentrou a janela do meu quarto
E me acordou.
Você não estava do meu lado.
Passei a te procurar nas esquinas
Nas padarias
Nos sinais fechados
Onde estão seus olhos?
Olhos de gato
Os meus olhos tristes de cão
Despejam lágrimas
Na minha imensidão
Eterna escuridão
Azul.
domingo, 30 de agosto de 2015
La futilité
Vá logo
vire as costas e vá depressa
vá viver o deslumbre das luzes europeias.
O que ficou pra trás na pressa?
Esqueça.
Não ocupe a cabeça
com o que nada significou.
Aquela casa, meu bem
era feita de pau brasil
se esfarelou.
As juras do último carnaval
estão surda-mudas
conversando cheias de rancor
em linguagem de sinal.
E o amor, meu bem?
O amor se perdeu
numa escala internacional.
Aproveite pra abandonar também o português
nossa pobre língua não serve
para a comunicação universal.
Não tenha pudor
empalideça e ceda
à intenção do colonizador.
Da melanina, do suor e das cores?
Bem, vão-se os anéis
ficam os dólares.
Não, não permita que sua alegria
seja ofuscada por esse lamento pontudo.
Da amora, meu bem?
Faça um suco.
vire as costas e vá depressa
vá viver o deslumbre das luzes europeias.
O que ficou pra trás na pressa?
Esqueça.
Não ocupe a cabeça
com o que nada significou.
Aquela casa, meu bem
era feita de pau brasil
se esfarelou.
As juras do último carnaval
estão surda-mudas
conversando cheias de rancor
em linguagem de sinal.
E o amor, meu bem?
O amor se perdeu
numa escala internacional.
Aproveite pra abandonar também o português
nossa pobre língua não serve
para a comunicação universal.
Não tenha pudor
empalideça e ceda
à intenção do colonizador.
Da melanina, do suor e das cores?
Bem, vão-se os anéis
ficam os dólares.
Não, não permita que sua alegria
seja ofuscada por esse lamento pontudo.
Da amora, meu bem?
Faça um suco.
domingo, 14 de junho de 2015
Julia
Há dias tenho tentado escrever
As palavras que esmagam meu peito
Mas não encontro maneiras de explicar
Exatamente o que seja
Esse gosto de sabão na boca.
Se nosso amor se fez colcha de retalhos
Pedaços costurados de tantos amores
De tantos amantes
O maior amor do mundo
Hoje o mundo se sente um pouco vazio
E nossos amantes choram sem saber porque
Na frente de uma janela, lavando a louça
Debaixo do pé de amora
Eles soluçam
Porque o mundo está mais triste
Porque a coisa mais bonita do mundo não existe.
As palavras que esmagam meu peito
Mas não encontro maneiras de explicar
Exatamente o que seja
Esse gosto de sabão na boca.
Se nosso amor se fez colcha de retalhos
Pedaços costurados de tantos amores
De tantos amantes
O maior amor do mundo
Hoje o mundo se sente um pouco vazio
E nossos amantes choram sem saber porque
Na frente de uma janela, lavando a louça
Debaixo do pé de amora
Eles soluçam
Porque o mundo está mais triste
Porque a coisa mais bonita do mundo não existe.
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