Talvez a vida seja feita de pequenas solidões no banco da praça
de pequenas realizações de olhos que sorriem
de pequenas lágrimas de grandes saudades
de uma poesia muito parca, muito simples
que se pretendia Drummond
e acabou sendo a plantinha que nasce entre as rachaduras do concreto
sem importância, sem beleza, sem visibilidade
esquecida
mas esquecidos todos estamos
somos todos homens mortos
desde o instante em que nos tiraram ensebados daquela mulher
que nos deve boa parte de suas rugas
e tudo o que soubemos fazer foi chorar
quem é que nos trouxe pro frio, pra essa luz que cega?
era tão bom, tão quentinho, um coração pulsando num ritmo acalentador
talvez a vida seja feita simplesmente de uma busca pelo útero materno
talvez a vida seja feita de imensas desilusões
e na melhor das hipóteses, desconstrução de muitas certezas
talvez a vida seja ter um grande objetivo
e ao chegar a ele, descobrir que o que era bom era buscá-lo
e que choramos e nos martirizamos porque não éramos bons o bastante
mas na verdade, assim éramos melhores
talvez a vida seja sempre esse buscar a felicidade no futuro
e descobri-la, tarde demais, no passado
mas jamais ser feliz.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
Vendo minha vida por dois trocados de sinceridade
Existe vida além dessas quatro paredes-cela
que encho de livros, desenhos, fotos
para forjar a liberdade
e faço todas as minhas viagens dentro de mim mesma
dos meus sonhos que voam muito além de todas as grades.
Existe uma extensão imensa de mim além do que se pode ver
maior ainda do que julgam que sou
como a ponta minúscula de um iceberg
minha parte submersa não tem fim.
Existe tanto nunca mais para pouco para sempre
e tanto amor além dessa hipocrisia
desse eufemismo
desse desamor subentendido
como se fosse possível amar por obrigação
grande piada!
Existem tantas lágrimas por detrás desses olhos
elas entregam sua pureza ao mundo
que não as merece.
Existe tanta crueldade também por detrás desses olhos
tudo o que é lindo pode ser podre
tudo o que é amor incondicional pode ser egoísmo
E o é, invariavelmente.
Tudo é duplo: os contrários que fazem-se um
nada ou ninguém é bom sem que seja também mau
mas nos contentamos em viver na mentira.
Existe algo que quer tanto voar
Além dessas expectativas que tanto machucam
além dessa crítica dura que não pretende nada além de podar, amputar.
Existe a vida e seu punhal de duas pontas
Por um caminho ou outro me lanço a ele
e me corto inteira
Talvez quando meu coração estiver completamente aos pedaços
talvez quando minhas entranhas estiverem colorindo de sangue tudo o que está fora de mim
Talvez quando já tiver explodido minha própria cabeça
e minha mente estiver voando como cacos de vidro em todas as direções
talvez exista então algum tipo de não-ter-fim.
ou um descansar-em-paz
me satisfaço.
Existe todo um livro-receita de escolhas muito mais saudáveis do que as que faço.
mas afinal, qual de nós não está um pouco doente?
eu por exemplo, estou cheia de escaras
meu corpo está dormente
eu já não ando, eu já não movo os braços, eu já não falo
Existem apenas dois olhos
que vêem e que silenciam.
que sorriem e que choram.
Sobre a pergunta que fiz em outro momento...
Eu sou o escafandro.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
E fim. Ponto.
![]() |
| Essa foto foi tirada pela talentosíssima Gi Godoi |
Câmbio.
Início.
Acho que sonhei com uma borboleta. Não tenho certeza e nem me lembro com clareza.
Tudo que me vem à mente é um bater de asas.
Um segundo, um espectro de cores que se misturam, se fundem, se penetram, são alguma outra coisa, uma cor transcendental, um som, um gosto, um cheiro,
movimento colorido, que parte e se parte.
A borboleta sou eu?
Não.
A borboleta não é ato, é potência.
Destino.
A que será que se destina?
Num dia de sol, daqui dois dias ou cinquenta anos, enfim a inércia inquebrantável
será quebrada.
Relatividade.
Numa noite estrelada, sob o universo e sua sinfonia incompreensível, o que é casulo
será borboleta.
Um dia...
Um bater de asas de uma borboleta...
Será um tufão no Japão!
(onde o Sol se esconde...)
Sóis.
Sois.
Dós e rés.
Um ponto final nos espera, indubitavelmente.
sábado, 27 de outubro de 2012
Aos que eu mais amo
"Histórias memoráveis" são aquelas que não dizem respeito somente a nossa história pessoal, mas que falam sobre toda a humanidade, segundo Don Juan.
Enquanto ele contava uma das suas: um toque do universo em sua vida, uma segunda chance, enquanto ele contava a nós sobre como ele chegou à compreensão de sua própria história, tão cheia de erros e de dores, e nos explicava a gratidão que sentia por ter tido a oportunidade de estar aqui e agora ("se qualquer coisa tivesse sido diferente eu não estaria"), vi seus olhos se encherem e transbordarem lágrimas, esses olhos imensos, hoje circundados por tantas rugas.
Só quem viveu o que eu vivi, essas tardes compartilhadas com três pessoas tão infinitas, entre lágrimas de emoção de nós quatro, consegue entender um amor tão imenso... É a poesia da vida que não tem fim.
Enquanto ele contava uma das suas: um toque do universo em sua vida, uma segunda chance, enquanto ele contava a nós sobre como ele chegou à compreensão de sua própria história, tão cheia de erros e de dores, e nos explicava a gratidão que sentia por ter tido a oportunidade de estar aqui e agora ("se qualquer coisa tivesse sido diferente eu não estaria"), vi seus olhos se encherem e transbordarem lágrimas, esses olhos imensos, hoje circundados por tantas rugas.
Só quem viveu o que eu vivi, essas tardes compartilhadas com três pessoas tão infinitas, entre lágrimas de emoção de nós quatro, consegue entender um amor tão imenso... É a poesia da vida que não tem fim.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Todos os mares do mundo
Ficou assim, com os olhos vidrados, deitada no chão, sem mover um único músculo. Alternavam-se períodos de uma completa ausência de si mesma e outros em que puxava o ar muito forte, como se lhe tivessem ferido de morte, uma faca no coração, uma pontada no estômago, dilacerado um pedaço da alma, ela respirava para lembrar que estava viva, para comprovar que aquele pesadelo terrível era mesmo real, e então as lágrimas voltavam a brotar no canto dos olhos, rolavam pela bochecha e mergulhavam, uma a uma, nos seus cabelos cacheados.
Chorou tanto que inundou o quarto, inundou a casa, de repente boiava no próprio pranto. O choro fez-se mar imenso que invadiu toda a cidade, as ondas de lágrimas, cada vez maiores, centímetros, metros, quilômetros, forçaram os moradores a saírem apressados, levando consigo somente o que tinham de mais precioso. Mães saíram com seus bebês nos braços, os avarentos com todas as suas economias, guardadas com tanto afinco debaixo dos colchões, saudosistas salvaram álbuns de fotografias e cartas, e os solitários levaram seus livros preferidos.
Aquele fenômeno estranho foi noticiado insistentemente pelos meios de comunicação durante toda a semana. Será que o nascimento de um novo mar surgido do absoluto nada e tão de repente era o anúncio do fim dos tempos? A catástrofe prometida enfim tivera início? Será que houvera alguma mudança no ciclo lunar e uma alteração no regime das marés? Ou a água vinha do centro da Terra?
Cientistas afobados com seus óculos fundo de garrafa chegavam a todo tempo com seus barquinhos, sobre as ruínas da cidade, com roupas de mergulho e fitas métricas, cadernos cheios de cálculos, e vidrinhos contendo amostras de toda e qualquer parte de tudo quanto existia.
Seitas religiosas foram fundadas, alguns acharam que se tratava de uma repetição do imenso dilúvio e mandaram construir sua própria arca de Noé, outros poderiam jurar que aquilo era obra de forças extraterrestres.
Mas não chegou-se à conclusão nenhuma e o fato, meses depois, foi esquecido. O novo mar foi incluído nos mapas e não falou-se mais nisso.
A menina despareceu, nunca mais ouviu-se falar dela. Na verdade, a única notícia que tive e que posso contar-lhes (devo deixar a ressalva de que as fontes não são totalmente confiáveis): uma criança que construía castelos de areia na recém surgida praia jura ter visto - no exato momento em que o Sol tocava o horizonte e iniciava sua viagem aos porões da Terra, onde adormece todas as noites - uma mulher azul andando sobre as águas.
Segundo relatos, ela tinha longos cabelos azuis, há quem diga que seus cabelos eram as próprias ondas do mar, que eles se estendiam até o infinito...
Quando o Sol enfim deitou-se em seu leito, disseram-me que ela dissolveu-se no mar de suas lágrimas.
Particularmente, só vejo uma explicação: sentiu tanta saudade que transbordou-se, que fundiu-se ao seu sentimento e fizeram-se, unidos, plenitude, solidão azul.
Não deveria contar-lhes, mas assim nasceram todos os mares do mundo: de uma saudade sem fim.
Chorou tanto que inundou o quarto, inundou a casa, de repente boiava no próprio pranto. O choro fez-se mar imenso que invadiu toda a cidade, as ondas de lágrimas, cada vez maiores, centímetros, metros, quilômetros, forçaram os moradores a saírem apressados, levando consigo somente o que tinham de mais precioso. Mães saíram com seus bebês nos braços, os avarentos com todas as suas economias, guardadas com tanto afinco debaixo dos colchões, saudosistas salvaram álbuns de fotografias e cartas, e os solitários levaram seus livros preferidos.
Aquele fenômeno estranho foi noticiado insistentemente pelos meios de comunicação durante toda a semana. Será que o nascimento de um novo mar surgido do absoluto nada e tão de repente era o anúncio do fim dos tempos? A catástrofe prometida enfim tivera início? Será que houvera alguma mudança no ciclo lunar e uma alteração no regime das marés? Ou a água vinha do centro da Terra?
Cientistas afobados com seus óculos fundo de garrafa chegavam a todo tempo com seus barquinhos, sobre as ruínas da cidade, com roupas de mergulho e fitas métricas, cadernos cheios de cálculos, e vidrinhos contendo amostras de toda e qualquer parte de tudo quanto existia.
Seitas religiosas foram fundadas, alguns acharam que se tratava de uma repetição do imenso dilúvio e mandaram construir sua própria arca de Noé, outros poderiam jurar que aquilo era obra de forças extraterrestres.
Mas não chegou-se à conclusão nenhuma e o fato, meses depois, foi esquecido. O novo mar foi incluído nos mapas e não falou-se mais nisso.
A menina despareceu, nunca mais ouviu-se falar dela. Na verdade, a única notícia que tive e que posso contar-lhes (devo deixar a ressalva de que as fontes não são totalmente confiáveis): uma criança que construía castelos de areia na recém surgida praia jura ter visto - no exato momento em que o Sol tocava o horizonte e iniciava sua viagem aos porões da Terra, onde adormece todas as noites - uma mulher azul andando sobre as águas.
Segundo relatos, ela tinha longos cabelos azuis, há quem diga que seus cabelos eram as próprias ondas do mar, que eles se estendiam até o infinito...
Quando o Sol enfim deitou-se em seu leito, disseram-me que ela dissolveu-se no mar de suas lágrimas.
Particularmente, só vejo uma explicação: sentiu tanta saudade que transbordou-se, que fundiu-se ao seu sentimento e fizeram-se, unidos, plenitude, solidão azul.
Não deveria contar-lhes, mas assim nasceram todos os mares do mundo: de uma saudade sem fim.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Meu menino
Olha por nós, ó Pai.
Ora, Deus, ora por nós, antes de adormecer em seu berço.
Se não existires fora...
Existas dentro de mim, querido Deus.
Se não te deram a luz, Deus menino
É hora de nascer.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Se um dia eu me encontrar...
Se um dia nos cruzarmos na rua, finja que não me conhece.
Poderíamos fazer como todas as outras pessoas: nos encontraríamos um dia no supermercado e falaríamos da família, você contaria das viagens artísticas que anda fazendo e eu te falaria de como meus filhos são brilhantes e arteiros, comentaríamos da velha turma, eu diria que encontrei um deles na fila do pão e você cruzou com um outro na entrada do cinema, e então diríamos que temos mesmo que nos ver, talvez até trocássemos telefones, prometeríamos nos encontrar, o que no fundo, jamais aconteceria. Você colocaria sua calça para lavar com o meu telefone no bolso, e o seu ficaria pra sempre no porta-luvas do carro.
Não, eu não suportaria. Não suportaria dissimular tão hipocritamente o fato de que descumprimos inegavelmente a nossa promessa de um futuro juntos, não saberia falar do preço da gasolina enquanto há tanta saudade no peito, e se não houver saudade, a consciência de que alguma coisa deu errado, um monumento de pedra na memória.
Não. Se um dia esbarrar comigo, não diga nada. Não quero saber da sua vida, não quero contar-lhe da minha. Me olhe por um instante e saiba, saiba de todos os momentos, de todas as lágrimas, saiba da dor da separação, saiba de como nos humilhamos, de como nos odiamos, de como nos amamos até o segundo em que tudo morreu, lembre-se de mim então pelo que eu era, ainda que você nem mesmo possa me reconhecer. Guarde no seu coração esse pequeno luto, esse pedaço secreto de existência jamais imaculado, ainda que enterrado. Guarde-o como algo divino, sagrado. Não, não diga nada. Siga andando, não comente com ninguém que me viu, e dali uns dias, esqueça.
Poderíamos fazer como todas as outras pessoas: nos encontraríamos um dia no supermercado e falaríamos da família, você contaria das viagens artísticas que anda fazendo e eu te falaria de como meus filhos são brilhantes e arteiros, comentaríamos da velha turma, eu diria que encontrei um deles na fila do pão e você cruzou com um outro na entrada do cinema, e então diríamos que temos mesmo que nos ver, talvez até trocássemos telefones, prometeríamos nos encontrar, o que no fundo, jamais aconteceria. Você colocaria sua calça para lavar com o meu telefone no bolso, e o seu ficaria pra sempre no porta-luvas do carro.
Não, eu não suportaria. Não suportaria dissimular tão hipocritamente o fato de que descumprimos inegavelmente a nossa promessa de um futuro juntos, não saberia falar do preço da gasolina enquanto há tanta saudade no peito, e se não houver saudade, a consciência de que alguma coisa deu errado, um monumento de pedra na memória.
Não. Se um dia esbarrar comigo, não diga nada. Não quero saber da sua vida, não quero contar-lhe da minha. Me olhe por um instante e saiba, saiba de todos os momentos, de todas as lágrimas, saiba da dor da separação, saiba de como nos humilhamos, de como nos odiamos, de como nos amamos até o segundo em que tudo morreu, lembre-se de mim então pelo que eu era, ainda que você nem mesmo possa me reconhecer. Guarde no seu coração esse pequeno luto, esse pedaço secreto de existência jamais imaculado, ainda que enterrado. Guarde-o como algo divino, sagrado. Não, não diga nada. Siga andando, não comente com ninguém que me viu, e dali uns dias, esqueça.
Assinar:
Postagens (Atom)
.jpg)
