numa madrugada embriagada
inesperada
de música, de rua
de passos cambaleantes pela calçada
de olhos brilhantes que não me disseram nada
na cadência das músicas da minha infância
em novas vozes e novo dedilhado
um encontro com os planos do passado
nada foi como eu esperava.
por outro lado
quanta poesia eu encontrei
nas esquinas dessa caminhada
de me descobrir inteira
me construir inteira
ser minha própria morada
minha companhia
minha guia
minha estrada.
domingo, 11 de dezembro de 2016
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Para administrar a solidão
Não contabilize amizades
Não crie expectativas
Procure não coçar o que está em carne viva.
Não releia velhas cartas
Evite quartos escuros
Procure trancar as memórias em lugares seguros.
Não vá olhar fotos antigas
Não se pergunte sobre o sentido da vida
Exclua qualquer música que não possa ser ouvida.
O olhar deve estar sempre voltado para frente
Boas doses de séries, filmes e qualquer outro entorpecente
Da mente.
Procure continuar cumprindo suas obrigações
Procure não tomar grandes decisões
Nos dias ruins.
A raiva pode ser eventualmente necessária
Para driblar os efeitos da saudade
Mas cuidado
Ela demanda o controle
Da própria agressividade.
Construa com as velhas mágoas o seu escudo
- preferível um coração mais prevenido
E se for possível
Não deixe a amargura tomar conta de tudo.
Se não houver nenhuma palavra que não seja cortante
Respire fundo por um instante
O silêncio é sempre o último refúgio
E quando não restar outro subterfúgio
Melhor manter-se muda.
A poesia ajuda
Contra as crises de dor aguda.
Não crie expectativas
Procure não coçar o que está em carne viva.
Não releia velhas cartas
Evite quartos escuros
Procure trancar as memórias em lugares seguros.
Não vá olhar fotos antigas
Não se pergunte sobre o sentido da vida
Exclua qualquer música que não possa ser ouvida.
O olhar deve estar sempre voltado para frente
Boas doses de séries, filmes e qualquer outro entorpecente
Da mente.
Procure continuar cumprindo suas obrigações
Procure não tomar grandes decisões
Nos dias ruins.
A raiva pode ser eventualmente necessária
Para driblar os efeitos da saudade
Mas cuidado
Ela demanda o controle
Da própria agressividade.
Construa com as velhas mágoas o seu escudo
- preferível um coração mais prevenido
E se for possível
Não deixe a amargura tomar conta de tudo.
Se não houver nenhuma palavra que não seja cortante
Respire fundo por um instante
O silêncio é sempre o último refúgio
E quando não restar outro subterfúgio
Melhor manter-se muda.
A poesia ajuda
Contra as crises de dor aguda.
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Pedras, noites e poemas
Pulsam as palavras em português no meu sangue
Correm nas minhas artérias as histórias dos velhos caminhoneiros
Seus valiosos ensinamentos e sua ousadia de se fazerem poetas
Contra todas as probabilidades.
Na frustração e na perspicácia do meu pai
Abobalhado diante da televisão
"É golpe! É golpe!"
Vejo um avô que sem nenhum cultura
Achou que era uma boa ideia encher o filho de enciclopédias
E ele se tornou militante quando ainda era secundarista
Primeiro a se formar na família.
Nos primeiros anos da minha vida, meu pai me contava histórias de beija-flores
Que carregando água no biquinho contra a imensidão de um incêndio na floresta
Nos primeiros anos da minha vida, meu pai me contava histórias de beija-flores
Que carregando água no biquinho contra a imensidão de um incêndio na floresta
Explicavam, sem vacilar: "eu estou fazendo a minha parte!"
Hoje desacredita, amargurado, dos beija-flores de nosso povo.
Diz cheio de angústia que a esquerda vai demorar mais 100 anos para voltar a governar
E que ele vai morrer sem ver o país com que sonhou.
Eu ás vezes também não sei se o beija-flor vai ver renascida a floresta
Mas eu sei, com a certeza do amor que me habita
Que ela ressurgirá
Porque a vida é sempre capaz de romper as cinzas da infertilidade.
Porque restam sempre dentro do chão as sementes.
Porque um caminhoneiro ensinou ao seu filho a poesia que não aprendeu em nenhuma escola
E esse filho me ensinou que era preciso lutar sempre contra o império da morte
Eu sei que da criatividade encantadora do meu povo
Nascerá o mundo que já meu velho anunciava
Quando ainda não tinha cabelos brancos
Nos seus mais belos sonhos.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Água
Já percebeu como a água invade tudo?
Agora, por exemplo, tsunami invadindo minhas pálpebras
E elas ficam túrgidas.
Sempre que choro madrugadas imagino
Água preenchendo o espaço entre as células dos meus olhos
Somos feitos de partes tão pequeninas
E tudo neste mundo é tão mais água que terra
Queria eu que ela pudesse lavar e levar embora
Todas essas dores.
Agora, por exemplo, tsunami invadindo minhas pálpebras
E elas ficam túrgidas.
Sempre que choro madrugadas imagino
Água preenchendo o espaço entre as células dos meus olhos
Somos feitos de partes tão pequeninas
E tudo neste mundo é tão mais água que terra
Queria eu que ela pudesse lavar e levar embora
Todas essas dores.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Às paredes do DADU
Homens e mulheres sem história são incapazes de entender de onde vieram. São pessoas sem forma, sem senso crítico, que reproduzem como gravadores o que lhes ensina a mídia, que vivem para o que lhes ordena a Indústria.
Como tornar a vida mais lucrativa? Trabalhe 80 horas semanais! O Homem sem história trabalha sem questionar.
O sentido máximo de Alienação é esse: o trabalhador que não reconhece o produto de seu trabalho.
O produto de seu trabalho, no entanto, é o próprio Mundo. Quem fez o Mundo com a força dos próprios braços não sabe que ele é seu, não usufrui dele e aceita que lhe roubem o valor do que produziu.
É a mulher deprimida que chega ao nosso consultório, exausta e vazia, porque lhe ensinaram que nasceu para ser mãe, que o trabalho serve para sustentar os filhos, e agora que eles saíram de casa, ela não tem mais razão de existir. Essa Mulher não entende a história que a forjou. Não compreende porque isto lhe é imposto. Não entende o seu lugar no mundo.
Conhecer a própria origem é a única maneira de caminhar para frente, de não repetir os erros que foram cometidos no passado. Quem não sabe de onde vem, não entende quem é, não entende o mundo em que vive, anda a esmo.
Porque nos apagaram a memória, alguns defendem o retorno à Ditadura Militar. Não sabem que centenas de pessoas foram assassinadas, torturadas, sem ter direito a um único julgamento? Não sabem que a seres humanos foram infligidas dores inimagináveis, seres humanos cujo grande crime foi lutar pela democracia? Não sabem. Eles não têm memória.
E é por isso que me dói tanto a tentativa de apagar a história do DADU.
Ouvi dizer que pintarão de branco as paredes do D.A.
Pra quem nunca entrou ali, preciso explicar: as paredes do DADU são repletas de frases, frases que estudantes diversos escreveram à medida que foram passando pelo Diretório.
Aquelas frases já existiam quando, 4 anos atrás, eu passei pela primeira vez por aquela porta e conheci o único lugar que cuidaria um pouquinho de mim, que seria um pouco de refúgio, um pouco de carinho e muito aprendizado, neste caminho árido que escolhi trilhar.
Não era incomum que um professor, um estudante de residência, um médico já formado adentrasse a salinha e ao olhar para as paredes apontasse: “aquela ali fui eu que escrevi!”. Nos contava, então, alguma história inusitada de um tempo que já passou, que existe hoje somente num traço de tinta desbotado na parede.
Todos aqueles fragmentos têm uma origem. São pedaços de pessoas que foram se tornando lembrança. São centenas de mãos dando a sua contribuição a um Diretório que foi verdadeiramente uma construção coletiva. Aquelas paredes são a consciência e a memória do DADU.
Aquela lugar é vivo, fala comigo através de centenas de mãos, me conta a sua história.
Estão tentando emudecê-lo para sempre.
Mas eu não esqueço.
Se a tentativa é de nos apagar, apagar a história do DADU, se a tentativa é de exterminar o pensamento discordante, escrevo hoje para dizer que estou aqui. E que, como eu, muitos outros ainda guardam dentro de si alguma cor que o DADU lhes imprimiu.
Não vamos deixar de existir. Somos a história viva do DADU. Trazemos o DADU na pele e na alma, nas nossas histórias, em quem somos e nos tornamos, nos médicos e médicas que somos e seremos.
Sei que posso falar por todos eles quando digo: reivindicamos, hoje e sempre, o direito à Memória. Não somos homens e mulheres sem história.
O sentido máximo de Alienação é esse: o trabalhador que não reconhece o produto de seu trabalho.
O produto de seu trabalho, no entanto, é o próprio Mundo. Quem fez o Mundo com a força dos próprios braços não sabe que ele é seu, não usufrui dele e aceita que lhe roubem o valor do que produziu.
É a mulher deprimida que chega ao nosso consultório, exausta e vazia, porque lhe ensinaram que nasceu para ser mãe, que o trabalho serve para sustentar os filhos, e agora que eles saíram de casa, ela não tem mais razão de existir. Essa Mulher não entende a história que a forjou. Não compreende porque isto lhe é imposto. Não entende o seu lugar no mundo.
Conhecer a própria origem é a única maneira de caminhar para frente, de não repetir os erros que foram cometidos no passado. Quem não sabe de onde vem, não entende quem é, não entende o mundo em que vive, anda a esmo.
Porque nos apagaram a memória, alguns defendem o retorno à Ditadura Militar. Não sabem que centenas de pessoas foram assassinadas, torturadas, sem ter direito a um único julgamento? Não sabem que a seres humanos foram infligidas dores inimagináveis, seres humanos cujo grande crime foi lutar pela democracia? Não sabem. Eles não têm memória.
E é por isso que me dói tanto a tentativa de apagar a história do DADU.
Ouvi dizer que pintarão de branco as paredes do D.A.
Pra quem nunca entrou ali, preciso explicar: as paredes do DADU são repletas de frases, frases que estudantes diversos escreveram à medida que foram passando pelo Diretório.
Aquelas frases já existiam quando, 4 anos atrás, eu passei pela primeira vez por aquela porta e conheci o único lugar que cuidaria um pouquinho de mim, que seria um pouco de refúgio, um pouco de carinho e muito aprendizado, neste caminho árido que escolhi trilhar.
Não era incomum que um professor, um estudante de residência, um médico já formado adentrasse a salinha e ao olhar para as paredes apontasse: “aquela ali fui eu que escrevi!”. Nos contava, então, alguma história inusitada de um tempo que já passou, que existe hoje somente num traço de tinta desbotado na parede.
Todos aqueles fragmentos têm uma origem. São pedaços de pessoas que foram se tornando lembrança. São centenas de mãos dando a sua contribuição a um Diretório que foi verdadeiramente uma construção coletiva. Aquelas paredes são a consciência e a memória do DADU.
Aquela lugar é vivo, fala comigo através de centenas de mãos, me conta a sua história.
Estão tentando emudecê-lo para sempre.
Mas eu não esqueço.
Se a tentativa é de nos apagar, apagar a história do DADU, se a tentativa é de exterminar o pensamento discordante, escrevo hoje para dizer que estou aqui. E que, como eu, muitos outros ainda guardam dentro de si alguma cor que o DADU lhes imprimiu.
Não vamos deixar de existir. Somos a história viva do DADU. Trazemos o DADU na pele e na alma, nas nossas histórias, em quem somos e nos tornamos, nos médicos e médicas que somos e seremos.
Sei que posso falar por todos eles quando digo: reivindicamos, hoje e sempre, o direito à Memória. Não somos homens e mulheres sem história.
domingo, 26 de junho de 2016
Meu coração é Sem Terra
Meu coração é Sem Terra
Porque a verdade é que meu povo sempre viveu na guerra
E esses heróis teimosos
Heróis anônimos
Munidos da maior coragem do mundo
Se Levantaram contra o império cruel do latifúndio
E decidiram não se acostumar jamais com a escravidão.
Teimosia de plantar, colher, dividir o chão.
Porque a verdade é que meu povo sempre viveu na guerra
E esses heróis teimosos
Heróis anônimos
Munidos da maior coragem do mundo
Se Levantaram contra o império cruel do latifúndio
E decidiram não se acostumar jamais com a escravidão.
Teimosia de plantar, colher, dividir o chão.
Se a semente de um novo mundo descansa
Na palma da nossa mão
Se estamos nos propondo a dividir da casa ao pão
Pela realidade que se constrói de grão em grão
Se essa é uma escolha que se leva pro caixão
O meu coração
Meu coração é Sem Terra
Na palma da nossa mão
Se estamos nos propondo a dividir da casa ao pão
Pela realidade que se constrói de grão em grão
Se essa é uma escolha que se leva pro caixão
O meu coração
Meu coração é Sem Terra
sábado, 11 de junho de 2016
Nada-ser
Remédio amargo
Vou entendendo que sou sozinha.
Em alguns momentos aproveito o conforto
De ser o único ser pensante dentro de mim.
Nesse casulo quente que é o meu corpo
Minha mente vaga universos.
Invólucro
Limita as minhas possibilidades metafísicas
Enquanto enche de cores e sinestesias
O território quadrado da razão de Descartes.
Às vezes gosto da perspectiva de que meus olhos
Sejam a única lente gravando
A beleza que eu vi no mundo
E que minha consciência seja a única telespectadora
Das emoções inebriantes
Que encharcam meus nervos.
Ás vezes o que vejo me deslumbra de tal maneira
Que prefiro não empobrecer o sentimento com palavras.
Ás vezes gosto da incompreensão do que é ser outro
E da incompreensão dos outros acerca do que eu sou.
E vou me descolando das outras vidas
Aprendendo a deixá-las partir.
Em outros momentos sinto uma ausência espinhenta
Alguma coisa que está ali, mas que é só falta
Como seria possível dimensionar o que não existe?
Ás vezes parece que a falta é a maior parte do que sou
Como se eu estivesse repleta de espaços vazios
E porque o nada é infinito
Não posso caber em lugar algum.
Vou entendendo que sou sozinha.
Em alguns momentos aproveito o conforto
De ser o único ser pensante dentro de mim.
Nesse casulo quente que é o meu corpo
Minha mente vaga universos.
Invólucro
Limita as minhas possibilidades metafísicas
Enquanto enche de cores e sinestesias
O território quadrado da razão de Descartes.
Às vezes gosto da perspectiva de que meus olhos
Sejam a única lente gravando
A beleza que eu vi no mundo
E que minha consciência seja a única telespectadora
Das emoções inebriantes
Que encharcam meus nervos.
Ás vezes o que vejo me deslumbra de tal maneira
Que prefiro não empobrecer o sentimento com palavras.
Ás vezes gosto da incompreensão do que é ser outro
E da incompreensão dos outros acerca do que eu sou.
E vou me descolando das outras vidas
Aprendendo a deixá-las partir.
Em outros momentos sinto uma ausência espinhenta
Alguma coisa que está ali, mas que é só falta
Como seria possível dimensionar o que não existe?
Ás vezes parece que a falta é a maior parte do que sou
Como se eu estivesse repleta de espaços vazios
E porque o nada é infinito
Não posso caber em lugar algum.
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