sábado, 8 de outubro de 2011

Coragem é manter-se vivo.

Quando eu morrer que me enterrem
Na beira do chapadão
Contente com minha terra
Cansado de tanta guerra
Crescido de coração.

Na beira do precipício, o sol quente tocava a pele e o vento soprava seu corpo na direção contrária àquela para qual seu senso destrutivo o direcionava.
Vivia assim de extremos, pelo prazer de compreender que quando se atinge o limite suportável, ainda é possível resistir um pouco mais.
Resistência. Se vivesse mil anos ou um segundo, que vivesse e morresse lutando. Que permanecesse de pé, que tivesse sempre a coragem de encarar o Sol, e buscar o alto, sempre mais alto, sempre mais pleno e mais forte. Que vivesse e que morresse como um guerreiro, que não se entrega jamais.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Para os olhos ateus

Pra você, meu pedacinho de sentido, meu pedacinho de felicidade, meu refúgio, meu colo, minha casa, meu pedaço de eternidade, minha crença, minha religião, minha poesia, minha escolha, meu destino, minha esperança, meu futuro, minha inspiração, meu pra sempre... eu agradeço por cada um dos nossos segundos, tão nossos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Tarde com Clarice Lispector

Entrei naquela cozinha iluminada pelo Sol da tarde, cheirava a café, e ela me disse que era só um instante, que ela só estava terminando de passá-lo. "Meu café é amargo como ás vezes sou, espero que não se importe".
Clarice não sabia que o amargo dela era a parte mais doce do mundo.
Desculpou-se pela bagunça em cima da mesa, disse que não havia recolhido aquilo desde a manhã, quando trabalhara na 'compilação' de suas idéias, e de alguns fragmentos que havia imaginado na semana anterior.
Sentei-me em sua mesa de madeira, agradeci por ter-me recebido de tão bom grado, expliquei em simples termos minha admiração por ela, se não pela literatura e a habilidade com as palavras (incontestável), então por ela mesma, como pessoa, escrita em essência naqueles textos e em certos momentos tão visível, tão palpável, por trás de tais palavras, que eu chegava a julgar (talvez 'julgar' não seja a melhor palavra, corrijo-me: eu chegava a sentir) conhecê-la na intimidade.
Logo que pronunciei tal declaração, me senti de imediato vexada, afinal de contas, eu não era mais que uma estranha sentada na cadeira de sua cozinha.
Mas pra minha surpresa, Clarice me olhava com afeto, sem abandonar aquela tristeza sempre presente no olhar.
Me perguntou se, como sua amiga íntima, eu gostava dela.
Lhe expliquei então, com algumas omissões necessárias e em termos eufêmicos, que não só gostava dela, como em certos momentos, parecia que ela havia lido minha alma, parecia que ela era eu.
Ela sorriu com o canto dos lábios, com esse sorriso fugaz e velado de Clarice, e disse que quando ela escrevia, ela era toda a humanidade, e que não escrevia para ninguém, e que ás vezes escrevia somente para si mesma, e que por isso mesmo conversava com a alma de qualquer ser vivo.
Perguntei-lhe como era conviver com tamanha intensidade dentro de si. Ela disse que era segredo, mas que no fundo eu sabia a resposta de cor e completamente.
Clarice falava de suas histórias de forma modesta, colocando-se como uma escritora de menor grau, mas em momento nenhum era modesta quanto á sua sensibilidade e intensidade, falava delas com certo orgulho, embora suas maneiras delicadas não deixassem transparecer nenhum tipo de vaidade.
Cheguei então á questão principal. Confessei á ela, já estivesse completamente à vontade, que na verdade eu estava ali sim para saber um pouco mais de sua obra, como grande leitora de seus livros e alguém que pretendia (quem sabe um dia) escrever, mas que, principalmente, gostaria de saber se ela tinha alguma solução para a vida.
Ela pareceu um pouco curiosa frente á tal afirmação e me incentivou a continuar. Expliquei: a vida andava vazia (afirmação banal quando dita, mas arrasadora quando sentida) e eu vivia na ânsia de produzir qualquer coisa que pudesse inspirar, e que eu pudesse deixar no mundo , que pudesse permanecer após a minha morte. Eu queria deixar algo de verdadeiro valor para o Mundo, mas parecia que o que o Mundo esperava era que simplesmente sobrevivêssemos, acumulássemos, reproduzíssemos. Contradição intrínseca! "Clarice, simplesmente não há como viver á parte da realidade. Meu ser nega á todo tempo o real, o orgânico, o cru, o concreto, mas, ao mesmo tempo, é impossível negá-lo, é impossível, aliás, em certos momentos, conceber qualquer coisa além disso."
Ela então me olhou muito profundamente nos olhos, e disse cheia de carinho "Ora, querida, pois é essa a questão de todo ser que sente. Esse embate, essa contradição, como você mesma diz, intrínseca, é a grande angústia do indivíduo, é o que faz com que os adultos sejam sempre tristes e sozinhos. Não há solução. Não temos de buscá-la. Estamos vivos enquanto estivermos vivos, e sentimos porque é inevitável. A parte disso, existe toda a intensidade da vida, a ser sugada, como um bebê, que suga vorazmente o seio machucado da mãe. O mundo está machucado da nossa sede, também, mas há que sugá-lo até a última gota. É algo como a lei da natureza. Muito cru, insuportavelmente cru, e ao mesmo tempo, simplesmente e naturalmente digerível. Se quer um conselho: faça um pedido ás suas entranhas, logo a indigestão tornará-se mero desconforto, até que volte."
Aceitei o conselho de minha amiga autora (se me permitem o abuso), voltamos ao café e tratamos de falar de trivialidades, se bem que, para Clarice, nada era trivial, sob tudo residia um sentido maior, uma poesia e profundidade que ás vezes só ela captava.
Deixei-me estar envolvida pela tristeza e gravidade de minha desconhecida nova amiga e de toda a vida, e a tomar seu café amargo como ela era doce, e me perder no alaranjado daquela tarde, cerca de 40 anos atrás, no dia de hoje.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ao poeta perdido

Cadê você? Olho e não te vejo mais. É o mesmo corpo, a mesma barba, os braços que já foram a segurança do mundo. Mas não é você. Seu discurso está vazio. Seu amor se mostrou condicional, fraco e limitado. Seu abraço não me cabe mais.

domingo, 3 de julho de 2011

Ao pó.

Da tentativa, ficou a frustração. Da motivação, ficou o nada, ressoando como pontadas dentro de mim. Da poesia, só vi o concreto. Da crença no futuro, ficou a desilusão. De todo colo quente, ficou o sozinho. De toda luz, ficou cinza o céu azul. De tudo que floresce, ficou a morte inevitável. Da boca sorrindo, ficou o perpétuo gosto de sangue. Do que era música, ficou o silêncio. E a dança se transformou nos dedos acusadores da platéia. O movimento alegre e livre está aprisionado. E as asas que levavam à imensidão estão podadas. Do que era inspiração, ficou o vazio.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Acalanto

- Estupendoirreverentemelancólicoprofundointensomergulhonopulsonosanguenalma!
Foi o que Alicia, uma das críticas de arte mais jovens de seu tempo, metida à entendida e com um corte de cabelo francês, soltou num único fôlego ao encontrar pela primeira vez a obra de Renato.
O quadro tinha uma pegada vanguardista, qualquer coisa expressionista, mais ou menos abstrata e surreal.
A moça quis conhecer o tal Renato, da caligrafia quase ininteligível e dos quadros emocionais, e surpreendeu-se ao se deparar com um homem que não parecia ter completado nem seus trinta anos de idade, de aparência absolutamente jogada, cabelo mal cortado, barba mal feita, unhas sujas, e por trás disso tudo, um rosto de rapaz bonito e bem criado.
Chamou-o para tomar um café em sua casa, e discutir suas obras e influências artísticas, mas assim que o rapaz colocou o pé para dentro da linha da porta de seu apartamento, Alicia envolveu-o em seus braços e saciou em sua saliva a sede de seu desejo.
Foi um ato desesperado de quem precisava romper a monotonia inerte e perpétua, agitar a alma e expulsar o tédio. Agora jaziam os dois no chão, semi-mortos em meio a livros e textos manuscritos, milhares deles, incrivelmente rasurados.
Jaziam em meio á própria solidão doída e veladamente compartilhada.
Renato pegou um dos livros empilhados, e não pôde resistir à vontade de perguntar a ela de quem era a dedicatória, cheia de tantos versos de amor.
E como se tivesse esperado sempre por este momento, Alicia olhou bem nos olhos de Renato e narrou toda a história de seu amor e seu fim catastrófico, e Renato sentiu-se à vontade para contar da sua grande decepção, encarnada numa ruiva inglesa, que parecia ter saído do velho mundo para roubar-lhe a paz.
Os dois ficaram assim, falando de toda a mágoa que até então se encontrava calada, em plena intimidade, até o dia amanhecer e os primeiro raios de sol irem encontrar seus corpos jogados no tapete da sala, pela porta da varanda.






sexta-feira, 3 de junho de 2011

Aniversariando

Amo fazer aniversário. Quando era criança, adorava pensar que ficava mais velha. Hoje não. Hoje saber-me mais velha não me parece nem bom nem ruim, mas simplesmente inevitável, é a poesia da vida, não contesto. Hoje gosto de fazer aniversário porque sinto que o dia é meu, e porque preciso tanto desse meu dia, pra ser ninada e mimada, pra fazer manha.
E daí que dia 3 de junho é pra mim sempre eufórico, e ao mesmo tempo triste. Não de uma tristeza plenamente triste, mas de uma tristeza de olhos sorrindo, cheios de saudade.
É porque uma parte de mim sempre se despede, se despede de tudo o que foi, sempre se assusta com o quanto tudo muda rápido, e aí dá saudade do presente, dá medo de perder, medo de crescer, de mudar.
Me despeço dos meus 16 anos. Não sem tristezas, não sem arrependimentos, não sem um pouco de pesar por não ter dado mais de mim, por não ter vencido minha inércia em certas ocasiões, por ter perdido tempo, tempo de felicidade, tempo das pessoas. Mas ainda sim, muito orgulhosa, muito realizada, por estar onde estou, por estar forte e feliz, por ter conseguido cultivar e cuidar do amor em tanta gente bonita, por ter sobrevivido, por ter aprendido tanto, por sem quem eu sou, amar e sentir saudades.