sábado, 12 de novembro de 2011

Andarilho

Vaga, arrastando os pés
Arrastando correntes
Vaga
Como um fantasma
Como uma presença ausente
Como uma lembrança
Asa de beija-flor
Onde está?
Não vi
Vaga
Com seu ser solitário
Em si: a única certeza
Pois foi e está esquecido
Vaga
Pois não há nada além de vagar
Nesse carrossel colorido de viver
Onde todas as cores
Passam
Passam e não voltam
São momentos vagos
Vaga
Porque a vida é vã
e a alma
a alma é
Vaga
Vaga porque o amor é inútil
Porque só há
a andança
Para ser mais forte e suportar a solidão
Vaga
Talvez haja um sentido em vagar
ou talvez seja tudo vago
ou talvez só haja
o tempo.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Vício

São 4 horas da manhã e já te espero descer a avenida, desse jeitinho que só você sabe fazer, segurando o sapatinho número 35, e cambaleando um pouco, mas sempre mantendo a postura e esse gingado, essa sua forma de desfilar meio samba e meio bossa-nova.
São 5 horas e você ainda não veio, seu João, atrás do balcão engordurado, prevê minha impaciência e desce mais uma cerveja, faz uma piada, me oferece o pandeiro, mas não, seu João, o batuque fica pra depois. Assim que você passar, e eu puder dar uma olhada no seu cabelo desarrumado, de quem passou a noite por aí, no meio de qualquer lençol amassado, assim que eu puser meus olhos em você, na sua maquiagem borrada, no seu meio sorriso confuso, aí sim, aí o seu João me traz o pandeiro, que eu vou te compor um samba.
São 6 horas e eu já estou no whisky. O dia amanhece, e já me acostumei a começá-lo assim, com a bebida castanho-avermelhada, onde boiam pedrinhas de água de coco. Te odeio então, te odeio por me condenar a essa existência miserável, esse cheiro de álcool impregnado em mim, esse tic-tac infinito e cíclico, que só se dilui quando você passa. Te odeio então, por fazer da minha alma uma fonte perene, que você faz renascer com a sua ausência, e onde, à despeito das minhas penas em te esperar, você se delicia, com sede voraz, vampiresca.
E eu sei, eu sei que sou só mais um dos teus amantes, sei bem que o sorriso que me recebe é o mesmo para tantos outros, e ás vezes chego a ter a impressão que esquece meu nome.
Ainda assim, não posso me livrar desses olhinhos que me aparecem de surpresa no alto da rua, e que parecem - serão? - a própria alvorada. Te amo, menina, e se você não fosse assim, de uma liberdade felina, talvez jamais te notasse.
Você também me lembra a alvorada, quando chega iluminando meus caminhos tão sem vida. Seu João, desce aí o pandeiro, pega o violão, que eu me lembrei duma música do Cartola que vai cair muito bem pra nós dois.
Fechamos o bar e descemos a rua, ainda murmurando com nossas línguas vacilantes: alvorada, lá no morro, que beleza...



sábado, 8 de outubro de 2011

Coragem é manter-se vivo.

Quando eu morrer que me enterrem
Na beira do chapadão
Contente com minha terra
Cansado de tanta guerra
Crescido de coração.

Na beira do precipício, o sol quente tocava a pele e o vento soprava seu corpo na direção contrária àquela para qual seu senso destrutivo o direcionava.
Vivia assim de extremos, pelo prazer de compreender que quando se atinge o limite suportável, ainda é possível resistir um pouco mais.
Resistência. Se vivesse mil anos ou um segundo, que vivesse e morresse lutando. Que permanecesse de pé, que tivesse sempre a coragem de encarar o Sol, e buscar o alto, sempre mais alto, sempre mais pleno e mais forte. Que vivesse e que morresse como um guerreiro, que não se entrega jamais.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Para os olhos ateus

Pra você, meu pedacinho de sentido, meu pedacinho de felicidade, meu refúgio, meu colo, minha casa, meu pedaço de eternidade, minha crença, minha religião, minha poesia, minha escolha, meu destino, minha esperança, meu futuro, minha inspiração, meu pra sempre... eu agradeço por cada um dos nossos segundos, tão nossos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Tarde com Clarice Lispector

Entrei naquela cozinha iluminada pelo Sol da tarde, cheirava a café, e ela me disse que era só um instante, que ela só estava terminando de passá-lo. "Meu café é amargo como ás vezes sou, espero que não se importe".
Clarice não sabia que o amargo dela era a parte mais doce do mundo.
Desculpou-se pela bagunça em cima da mesa, disse que não havia recolhido aquilo desde a manhã, quando trabalhara na 'compilação' de suas idéias, e de alguns fragmentos que havia imaginado na semana anterior.
Sentei-me em sua mesa de madeira, agradeci por ter-me recebido de tão bom grado, expliquei em simples termos minha admiração por ela, se não pela literatura e a habilidade com as palavras (incontestável), então por ela mesma, como pessoa, escrita em essência naqueles textos e em certos momentos tão visível, tão palpável, por trás de tais palavras, que eu chegava a julgar (talvez 'julgar' não seja a melhor palavra, corrijo-me: eu chegava a sentir) conhecê-la na intimidade.
Logo que pronunciei tal declaração, me senti de imediato vexada, afinal de contas, eu não era mais que uma estranha sentada na cadeira de sua cozinha.
Mas pra minha surpresa, Clarice me olhava com afeto, sem abandonar aquela tristeza sempre presente no olhar.
Me perguntou se, como sua amiga íntima, eu gostava dela.
Lhe expliquei então, com algumas omissões necessárias e em termos eufêmicos, que não só gostava dela, como em certos momentos, parecia que ela havia lido minha alma, parecia que ela era eu.
Ela sorriu com o canto dos lábios, com esse sorriso fugaz e velado de Clarice, e disse que quando ela escrevia, ela era toda a humanidade, e que não escrevia para ninguém, e que ás vezes escrevia somente para si mesma, e que por isso mesmo conversava com a alma de qualquer ser vivo.
Perguntei-lhe como era conviver com tamanha intensidade dentro de si. Ela disse que era segredo, mas que no fundo eu sabia a resposta de cor e completamente.
Clarice falava de suas histórias de forma modesta, colocando-se como uma escritora de menor grau, mas em momento nenhum era modesta quanto á sua sensibilidade e intensidade, falava delas com certo orgulho, embora suas maneiras delicadas não deixassem transparecer nenhum tipo de vaidade.
Cheguei então á questão principal. Confessei á ela, já estivesse completamente à vontade, que na verdade eu estava ali sim para saber um pouco mais de sua obra, como grande leitora de seus livros e alguém que pretendia (quem sabe um dia) escrever, mas que, principalmente, gostaria de saber se ela tinha alguma solução para a vida.
Ela pareceu um pouco curiosa frente á tal afirmação e me incentivou a continuar. Expliquei: a vida andava vazia (afirmação banal quando dita, mas arrasadora quando sentida) e eu vivia na ânsia de produzir qualquer coisa que pudesse inspirar, e que eu pudesse deixar no mundo , que pudesse permanecer após a minha morte. Eu queria deixar algo de verdadeiro valor para o Mundo, mas parecia que o que o Mundo esperava era que simplesmente sobrevivêssemos, acumulássemos, reproduzíssemos. Contradição intrínseca! "Clarice, simplesmente não há como viver á parte da realidade. Meu ser nega á todo tempo o real, o orgânico, o cru, o concreto, mas, ao mesmo tempo, é impossível negá-lo, é impossível, aliás, em certos momentos, conceber qualquer coisa além disso."
Ela então me olhou muito profundamente nos olhos, e disse cheia de carinho "Ora, querida, pois é essa a questão de todo ser que sente. Esse embate, essa contradição, como você mesma diz, intrínseca, é a grande angústia do indivíduo, é o que faz com que os adultos sejam sempre tristes e sozinhos. Não há solução. Não temos de buscá-la. Estamos vivos enquanto estivermos vivos, e sentimos porque é inevitável. A parte disso, existe toda a intensidade da vida, a ser sugada, como um bebê, que suga vorazmente o seio machucado da mãe. O mundo está machucado da nossa sede, também, mas há que sugá-lo até a última gota. É algo como a lei da natureza. Muito cru, insuportavelmente cru, e ao mesmo tempo, simplesmente e naturalmente digerível. Se quer um conselho: faça um pedido ás suas entranhas, logo a indigestão tornará-se mero desconforto, até que volte."
Aceitei o conselho de minha amiga autora (se me permitem o abuso), voltamos ao café e tratamos de falar de trivialidades, se bem que, para Clarice, nada era trivial, sob tudo residia um sentido maior, uma poesia e profundidade que ás vezes só ela captava.
Deixei-me estar envolvida pela tristeza e gravidade de minha desconhecida nova amiga e de toda a vida, e a tomar seu café amargo como ela era doce, e me perder no alaranjado daquela tarde, cerca de 40 anos atrás, no dia de hoje.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ao poeta perdido

Cadê você? Olho e não te vejo mais. É o mesmo corpo, a mesma barba, os braços que já foram a segurança do mundo. Mas não é você. Seu discurso está vazio. Seu amor se mostrou condicional, fraco e limitado. Seu abraço não me cabe mais.

domingo, 3 de julho de 2011

Ao pó.

Da tentativa, ficou a frustração. Da motivação, ficou o nada, ressoando como pontadas dentro de mim. Da poesia, só vi o concreto. Da crença no futuro, ficou a desilusão. De todo colo quente, ficou o sozinho. De toda luz, ficou cinza o céu azul. De tudo que floresce, ficou a morte inevitável. Da boca sorrindo, ficou o perpétuo gosto de sangue. Do que era música, ficou o silêncio. E a dança se transformou nos dedos acusadores da platéia. O movimento alegre e livre está aprisionado. E as asas que levavam à imensidão estão podadas. Do que era inspiração, ficou o vazio.