Da tentativa, ficou a frustração. Da motivação, ficou o nada, ressoando como pontadas dentro de mim. Da poesia, só vi o concreto. Da crença no futuro, ficou a desilusão. De todo colo quente, ficou o sozinho. De toda luz, ficou cinza o céu azul. De tudo que floresce, ficou a morte inevitável. Da boca sorrindo, ficou o perpétuo gosto de sangue. Do que era música, ficou o silêncio. E a dança se transformou nos dedos acusadores da platéia. O movimento alegre e livre está aprisionado. E as asas que levavam à imensidão estão podadas. Do que era inspiração, ficou o vazio.
domingo, 3 de julho de 2011
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Acalanto
- Estupendoirreverentemelancólicoprofundointensomergulhonopulsonosanguenalma!
Foi o que Alicia, uma das críticas de arte mais jovens de seu tempo, metida à entendida e com um corte de cabelo francês, soltou num único fôlego ao encontrar pela primeira vez a obra de Renato.O quadro tinha uma pegada vanguardista, qualquer coisa expressionista, mais ou menos abstrata e surreal.
A moça quis conhecer o tal Renato, da caligrafia quase ininteligível e dos quadros emocionais, e surpreendeu-se ao se deparar com um homem que não parecia ter completado nem seus trinta anos de idade, de aparência absolutamente jogada, cabelo mal cortado, barba mal feita, unhas sujas, e por trás disso tudo, um rosto de rapaz bonito e bem criado.
Chamou-o para tomar um café em sua casa, e discutir suas obras e influências artísticas, mas assim que o rapaz colocou o pé para dentro da linha da porta de seu apartamento, Alicia envolveu-o em seus braços e saciou em sua saliva a sede de seu desejo.
Foi um ato desesperado de quem precisava romper a monotonia inerte e perpétua, agitar a alma e expulsar o tédio. Agora jaziam os dois no chão, semi-mortos em meio a livros e textos manuscritos, milhares deles, incrivelmente rasurados.
Jaziam em meio á própria solidão doída e veladamente compartilhada.
Renato pegou um dos livros empilhados, e não pôde resistir à vontade de perguntar a ela de quem era a dedicatória, cheia de tantos versos de amor.
E como se tivesse esperado sempre por este momento, Alicia olhou bem nos olhos de Renato e narrou toda a história de seu amor e seu fim catastrófico, e Renato sentiu-se à vontade para contar da sua grande decepção, encarnada numa ruiva inglesa, que parecia ter saído do velho mundo para roubar-lhe a paz.
Os dois ficaram assim, falando de toda a mágoa que até então se encontrava calada, em plena intimidade, até o dia amanhecer e os primeiro raios de sol irem encontrar seus corpos jogados no tapete da sala, pela porta da varanda.
Foi um ato desesperado de quem precisava romper a monotonia inerte e perpétua, agitar a alma e expulsar o tédio. Agora jaziam os dois no chão, semi-mortos em meio a livros e textos manuscritos, milhares deles, incrivelmente rasurados.
Jaziam em meio á própria solidão doída e veladamente compartilhada.
Renato pegou um dos livros empilhados, e não pôde resistir à vontade de perguntar a ela de quem era a dedicatória, cheia de tantos versos de amor.
E como se tivesse esperado sempre por este momento, Alicia olhou bem nos olhos de Renato e narrou toda a história de seu amor e seu fim catastrófico, e Renato sentiu-se à vontade para contar da sua grande decepção, encarnada numa ruiva inglesa, que parecia ter saído do velho mundo para roubar-lhe a paz.
Os dois ficaram assim, falando de toda a mágoa que até então se encontrava calada, em plena intimidade, até o dia amanhecer e os primeiro raios de sol irem encontrar seus corpos jogados no tapete da sala, pela porta da varanda.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Aniversariando
Amo fazer aniversário. Quando era criança, adorava pensar que ficava mais velha. Hoje não. Hoje saber-me mais velha não me parece nem bom nem ruim, mas simplesmente inevitável, é a poesia da vida, não contesto. Hoje gosto de fazer aniversário porque sinto que o dia é meu, e porque preciso tanto desse meu dia, pra ser ninada e mimada, pra fazer manha.
E daí que dia 3 de junho é pra mim sempre eufórico, e ao mesmo tempo triste. Não de uma tristeza plenamente triste, mas de uma tristeza de olhos sorrindo, cheios de saudade.
É porque uma parte de mim sempre se despede, se despede de tudo o que foi, sempre se assusta com o quanto tudo muda rápido, e aí dá saudade do presente, dá medo de perder, medo de crescer, de mudar.
Me despeço dos meus 16 anos. Não sem tristezas, não sem arrependimentos, não sem um pouco de pesar por não ter dado mais de mim, por não ter vencido minha inércia em certas ocasiões, por ter perdido tempo, tempo de felicidade, tempo das pessoas. Mas ainda sim, muito orgulhosa, muito realizada, por estar onde estou, por estar forte e feliz, por ter conseguido cultivar e cuidar do amor em tanta gente bonita, por ter sobrevivido, por ter aprendido tanto, por sem quem eu sou, amar e sentir saudades.
sábado, 21 de maio de 2011
De sermos primeira pessoa do plural
Nota: este parágrafo é pedaço de um outro texto, e não se trata necessariamente de qualquer coisa verídica.
(...) Caíram nossas flores, depois nossas folhas, e agora somos como árvores nuas. Este outono nosso tem sua poesia, essa alegria nostálgica de uma sombra cheia de buracos, de brincar com o pontilhado não revelado entre os pedacinhos infinitos de uma verdade brilhante de sol.
Somos como aqueles pedacinhos óbvios de sol, nosso brilho é tão arroz com feijão que já tem gosto de todo dia. Ainda assim, em certas ocasiões nos damos conta da magia de existirmos exatamente como somos, em certos momentos o manto dourado do sol, a nos cobrir de luz e calor, germinando-nos de tudo quanto existe, torna-se aos nossos olhos vestido de um milagre particular. É quando nos reconhecemos, e é quando eu tomo fôlego para continuar o meu mergulho em direção à qualquer pedaço de verdade, de ser eu e de sermos nós, fixa como terra firme, para que possamos dar um último impulso e submergir de toda dúvida. (...)
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Inveja Literária
Há algum tempo estou olhando para a tela branca, e sentindo pulsar em mim as palavras, sem conseguir concretizá-las.
Eu queria um texto que dissesse de tudo isso que tenho sentido, que contasse de todas as lágrimas que tenho derramado, e de todo aprendizado que, à trancos e barrancos, isso tem me trazido. Queria escrever qualquer coisa que pudesse falar de mim, e de tudo que eu gosto, e de como é bom, apesar de tudo, poder escutar o Caetano cantando Gil, e descobrir uma música nova do Chico.
Eu queria escrever uma conto que falasse bem sutilmente do mistério que é a vida, de como é sozinho existir, que falasse de toda a minha indecisão e dessas minhas discussões com Deus, assim como Clarice já me fez rir e chorar enquanto perdoava o Todo Poderoso.
Queria escrever uma crônica que fosse leve, e que pincelasse com humor negro (tão negro quando o humor daquele amigo dark do Caio Fernando de Abreu) a minha tristeza, e ao mesmo tempo, todo o amor por essa "poesia não vivida" que existe em mim, e que às vezes me invade em espasmos eufóricos, enquanto ouço Vinícius cantando manso aquele Rio que se perdeu.
Eu queria um texto que me desse clareza de todas essas coisas que eu não entendo, que me revelasse enfim a moral de tudo isso, que me ensinasse a trilhar o caminho (se é que há um caminho), e me deixasse ver onde vão dar todos esses sonhos, todas essas vontades, todos esses sentimentos, toda essa bossa nova e esse rock'n'roll.
Se me perguntassem, eu diria que gostaria de escrever um texto que emocionasse, que tocasse e colocasse dentro de quem lesse um pouco de mim, da minha verdade, e do que acredito. Que explicasse, por fim, de onde vem toda essa inquietação, esse desconforto diante de tudo que é instituído.
Eu queria escrever um texto que me abrigasse do ridículo, que rompesse os rótulos que andam comigo, que alongasse o tempo, que enganasse a morte.
Queria um texto que fosse casa e comida pro resto da vida, para não ter de enfrentar toda essa burocracia de viver, e gastar tempo com essas coisas supérfluas de sentir fome e sede, de ser perecível.
Eu queria escrever algo que fosse como as cartas da Clarice para o Fernando Sabino, ou as crônicas da Rachel de Queiroz. Eu queria a poesia do Drummond, e a delicadeza da Cecília, eu queria a ironia do Machado, e a sutileza do Quintana.
Mas o talento é pequeno e a poesia é pouca, e só me resta, antes do ponto final e do momento em que, pra vocês, eu me calo, preencher de sonhos todas essas lacunas.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Intransitivo?
A resposta ao amor que me falta
é amar muito mais.
amor inconstante, destrutivo, desvairado, descabido
amor que me faz caber pequena em seus braços
e que eu abrigo nos meus
como abrigo qualquer-coisa-rosa-cheia-de-espinhos
-vício de me fazer em pedaços
A resposta ao amor que me falta
sangrando nos dedos
cortados de rosa-necessariamente-vital-cortante
é amar
muito mais.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Traindo princípios (e fins)
...a mão trêmula acendeu um cigarro. andava cambaleando no meio da rua. não se preocupava com a morte: até a morte era lucro. nada fazia muito sentido. não era feliz e não era triste. nada fazia muito sentido mas não precisava fazer. a vida era somente como uma experiência: a única e derradeira. um rock pesado tocando na cabeça. nem bonito nem feio: vivo. os pensamentos e os sentimentos e as pulsões internas e o desejo de sair correndo com o vento nos cabelos rebeldes e compridos tantas vezes recriminados e a vontade de pichar os muros e de socar as paredes e de socar a cara dos transeuntes felizes e quebrar cada um dos seus sorrisos. quis correr e por isso saiu correndo. a opinião de outros fosse qual fosse não interessava. não era feliz e nem era triste. nada fazia sentido mas não precisava fazer...
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