terça-feira, 20 de março de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Must the show go on?

There must be some mistake,
I didn't mean to let them take away my soul
Am I too old?
Is it too late?
Where has the feeling gone?
Will I remember the songs?

The show must go on.

Um dia se chega ao esqueleto da vida. Suponho que ainda não tenha chegado, mas me encontre prematuramente muito perto. Como uma fruta, a vida perde a casca, depois os gomos, deixando somente uma áspera, espinhenta, feia semente.
Essa semente é a verdade, a verdade intrínseca de todas as coisas. Na realidade, entenda-me, não existe meio termo, todas as coisas são ou não são. Não existe meio amor, meio carinho, meia maldade, meia indiferença.
Palavras valem pouco, aprendi. Inclusive estas que professo agora. São vãs, não garantem, não mostram: mentem.
No cerne da vida, me vejo despida de tudo quanto achei essencial: tempo, carinho, tudo o que é alheio não posso considerar meu. E só me sobra exatamente o dom que Deus colocou no meu ser no momento da fecundação que me deu a vida: a própria vida.
Me mantenho viva, mesmo quando desejo um sono profundo e demorado, mantenho meu coração pulsando, porque na vida em essência, é isso que importa.
Tudo mais é ilusão.
Na essência do homem vi o amor, ou a crueldade, nos seus maiores requintes: depende do ponto de vista.
E se fiz as escolhas que fiz, foi pra aprender a amar direito: cuidado, amor se traduz nessa única palavra. Não há como amar um ser vivo, qualquer que seja, sem dispender o mínimo de cuidado. Se não for assim, não há amor.
Procuro um amor que não seja feito de palavras. Entenda: amor pelo ser humano, na sua raiz mais profunda, mais básica.
E sobre tudo isso existe o tempo, o tempo que envelhece, que arranca, que revela por fim sua cara.
Como me disse ontem Isabel Allende, "Meu passado tem pouco sentido, não vejo ordem, clareza, propósito nem caminhos, somente uma viagem ás cegas, guiada pelo instinto e por acontecimentos incontroláveis que desviam o curso do meu destino. Não houve cálculo, apenas boas intenções e a vaga suspeita de que existe um traçado superior que determina meus passos."
Na linha do tempo, me reporto ao dia de meu nascimento, do qual não me recordo, mas ouvi contar. Nessa cena que imagino, vejo a força de minha mãe para que eu pudesse nascer, e os braços do meu pai que me apararam na primeira vez que abri os olhos para o mundo.
Só agora entendo que as pessoas que lutarão por mim são aquelas que lutaram desde o momento que dei minha primeira bufada de ar neste mundo, e antes mesmo, em conversas intermináveis, dentro do ventre da minha mãe, quando decidiram me chamar de Sofia.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tudo aquilo que renasce

Quero ser livre de todos os cativeiros da minha alma, quero precisar menos de tudo que me amarra a este mundo, e ser mais essência.
De repente, toquei uma parte que achava estar morta, uma parte que tem uma urgência perpétua da vida, e que me faz sentir, no amor ou na dor, pulsante, como uma corrente de ar que enche minhas veias de sangue, e vai dos fios do meu cabelo á ponta dos dedos dos pés.
De repente, essa parte renascente precisa dizer ao mundo todo que vive, que anda, que sente, e que nenhum ideal está abandonado, nenhum sonho esquecido: a solidão vem me lembrar.
Quero dançar, quero colocar tudo o que sou em harmonia, uma harmonia cortante, de me saber plena no silêncio de não precisar ser, de me saber entendida somente pela minha própria consciência, de me saber infinita e infinitamente solitária: nada do que eu diga vai ser suficiente para me fazer compreender.
E estar no mundo, como observadora, como andarilha de todos os sentimentos, viajante de todos os acontecimentos: viva, e muda.

sábado, 12 de novembro de 2011

Andarilho

Vaga, arrastando os pés
Arrastando correntes
Vaga
Como um fantasma
Como uma presença ausente
Como uma lembrança
Asa de beija-flor
Onde está?
Não vi
Vaga
Com seu ser solitário
Em si: a única certeza
Pois foi e está esquecido
Vaga
Pois não há nada além de vagar
Nesse carrossel colorido de viver
Onde todas as cores
Passam
Passam e não voltam
São momentos vagos
Vaga
Porque a vida é vã
e a alma
a alma é
Vaga
Vaga porque o amor é inútil
Porque só há
a andança
Para ser mais forte e suportar a solidão
Vaga
Talvez haja um sentido em vagar
ou talvez seja tudo vago
ou talvez só haja
o tempo.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Vício

São 4 horas da manhã e já te espero descer a avenida, desse jeitinho que só você sabe fazer, segurando o sapatinho número 35, e cambaleando um pouco, mas sempre mantendo a postura e esse gingado, essa sua forma de desfilar meio samba e meio bossa-nova.
São 5 horas e você ainda não veio, seu João, atrás do balcão engordurado, prevê minha impaciência e desce mais uma cerveja, faz uma piada, me oferece o pandeiro, mas não, seu João, o batuque fica pra depois. Assim que você passar, e eu puder dar uma olhada no seu cabelo desarrumado, de quem passou a noite por aí, no meio de qualquer lençol amassado, assim que eu puser meus olhos em você, na sua maquiagem borrada, no seu meio sorriso confuso, aí sim, aí o seu João me traz o pandeiro, que eu vou te compor um samba.
São 6 horas e eu já estou no whisky. O dia amanhece, e já me acostumei a começá-lo assim, com a bebida castanho-avermelhada, onde boiam pedrinhas de água de coco. Te odeio então, te odeio por me condenar a essa existência miserável, esse cheiro de álcool impregnado em mim, esse tic-tac infinito e cíclico, que só se dilui quando você passa. Te odeio então, por fazer da minha alma uma fonte perene, que você faz renascer com a sua ausência, e onde, à despeito das minhas penas em te esperar, você se delicia, com sede voraz, vampiresca.
E eu sei, eu sei que sou só mais um dos teus amantes, sei bem que o sorriso que me recebe é o mesmo para tantos outros, e ás vezes chego a ter a impressão que esquece meu nome.
Ainda assim, não posso me livrar desses olhinhos que me aparecem de surpresa no alto da rua, e que parecem - serão? - a própria alvorada. Te amo, menina, e se você não fosse assim, de uma liberdade felina, talvez jamais te notasse.
Você também me lembra a alvorada, quando chega iluminando meus caminhos tão sem vida. Seu João, desce aí o pandeiro, pega o violão, que eu me lembrei duma música do Cartola que vai cair muito bem pra nós dois.
Fechamos o bar e descemos a rua, ainda murmurando com nossas línguas vacilantes: alvorada, lá no morro, que beleza...



sábado, 8 de outubro de 2011

Coragem é manter-se vivo.

Quando eu morrer que me enterrem
Na beira do chapadão
Contente com minha terra
Cansado de tanta guerra
Crescido de coração.

Na beira do precipício, o sol quente tocava a pele e o vento soprava seu corpo na direção contrária àquela para qual seu senso destrutivo o direcionava.
Vivia assim de extremos, pelo prazer de compreender que quando se atinge o limite suportável, ainda é possível resistir um pouco mais.
Resistência. Se vivesse mil anos ou um segundo, que vivesse e morresse lutando. Que permanecesse de pé, que tivesse sempre a coragem de encarar o Sol, e buscar o alto, sempre mais alto, sempre mais pleno e mais forte. Que vivesse e que morresse como um guerreiro, que não se entrega jamais.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Para os olhos ateus

Pra você, meu pedacinho de sentido, meu pedacinho de felicidade, meu refúgio, meu colo, minha casa, meu pedaço de eternidade, minha crença, minha religião, minha poesia, minha escolha, meu destino, minha esperança, meu futuro, minha inspiração, meu pra sempre... eu agradeço por cada um dos nossos segundos, tão nossos.