domingo, 27 de maio de 2012

Saudade

Teu olho que brilha e não para
Tuas mãos de fazer tudo e até
A vida que chamo de minha
Neguinha, te encontro na fé


Ás vezes no meio da aula, ou enquanto ando pela rua, me vem a lembrança de um dia tão lindo que passei ao seu lado, um apenas, entre a infinidade de dias tão lindos e tão intensos que tenho para lembrar, que ás vezes me fazem sorrir, e ás vezes me fazem chorar.
E eu te lembro sempre tão linda, sempre me fazendo sorrir, me dando força, em meio a esse seu amor infinito, em meio à essa sua capacidade de se doar inteira.
Estendo o meu amor, então, até o infinito, para que você possa sentir.
E aos poucos vou aprendendo a sentir a sua presença, dentro dessa ausência perpétua.
Aos poucos vou aprendendo a conversar com você, sem ouvir a sua voz.
Aos poucos vou aprendendo a ver o seu olhar, em todas as coisas bonitas que me lembram você, sem poder olhar pra esses seus olhos amendoados que me fazem tanta falta.
Hoje eu sei o significado de saudade, hoje seu nome é saudade, e saudade é o seu nome.

domingo, 20 de maio de 2012

Blanco

estrangeiro na minha alma
impossibilidade concretizada
insistentemente nos meus sonhos
significado surpreendentemente descoberto
no fundo negro da minha vida entendo-te
claro, alvo, translúcido 
resplandecentemente 
você

http://www.youtube.com/watch?v=jOTckSYX8Pg




segunda-feira, 7 de maio de 2012

Manifesto do antiquário vanguardista: pela não-violação dos meus segredos

Respeito aos símbolos e aos significados.
Respeito ao silêncio guardado entre dois olhares.
Respeito à poesia - nossa - de cada dia.
Respeito à expressão livremente livre.
Respeito aos nossos erros.
Respeito às nossas lágrimas.
Respeito ao sincero exagero.
Respeito à sangria da verdade.
Respeito à não-necessidade de ser.
Respeito à falta de sentido.
Respeito ao sentimento e ao sentimentalismo.
Respeito às lembranças.

Pelo fim da inoportuna e recém descoberta insensibilidade.
Para matar a mágoa.



sábado, 28 de abril de 2012

Ana

Minha preta tão amada,
Hoje entendo muito melhor tudo o que você me disse. Hoje morrer não é meu maior medo, hoje o meu maior medo é o de viver, do que ainda pode me acontecer, de quanta gente eu ainda posso perder.
Eu sei, preta, que você estava cansada, mas eu sei também o quanto você quis viver e ser como todo mundo, e eu não aceito, pretinha, eu não aceito que tudo tenha chegado ao fim dessa forma.
Eu escuto a sua voz o tempo todo no meu ouvido, dizendo "não chora, sof", com esse jeitinho meigo com que você costumava falar essas coisas. Me perdoa, pretinha, hoje não consigo. Me perdoa pelas minhas fraquezas todas.
Mas espero, espero a minha hora chegar, eu sei que você vem ter comigo, me olhar com os seus olhos amendoados, e quem sabe num outro lugar, algum dia, a gente possa de novo comer a melhor pipoca doce do mundo e dar gargalhada dum filme de terror horrível.
Segue teu caminho, preta, seja ele qual for, que Deus te ilumine.
Fica aqui, neste mundo feio, o meu amor infinito.

domingo, 22 de abril de 2012

Terra

"Terra! um dia comerás meus olhos…

Eles eram
No entanto
O verde único de tuas folhas
O mais puro cristal de tuas fontes…

Meus olhos eram os teus pintores!

Mas, afinal, quem precisa de olhos para sonhar?
A gente sonha é de olhos fechados.

Onde quer que esteja… onde for que seja…
Na mais densa treva eu sonharei contigo,
Minha terra em flor!"


                               
                                          Mário Quintana

terça-feira, 20 de março de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Must the show go on?

There must be some mistake,
I didn't mean to let them take away my soul
Am I too old?
Is it too late?
Where has the feeling gone?
Will I remember the songs?

The show must go on.

Um dia se chega ao esqueleto da vida. Suponho que ainda não tenha chegado, mas me encontre prematuramente muito perto. Como uma fruta, a vida perde a casca, depois os gomos, deixando somente uma áspera, espinhenta, feia semente.
Essa semente é a verdade, a verdade intrínseca de todas as coisas. Na realidade, entenda-me, não existe meio termo, todas as coisas são ou não são. Não existe meio amor, meio carinho, meia maldade, meia indiferença.
Palavras valem pouco, aprendi. Inclusive estas que professo agora. São vãs, não garantem, não mostram: mentem.
No cerne da vida, me vejo despida de tudo quanto achei essencial: tempo, carinho, tudo o que é alheio não posso considerar meu. E só me sobra exatamente o dom que Deus colocou no meu ser no momento da fecundação que me deu a vida: a própria vida.
Me mantenho viva, mesmo quando desejo um sono profundo e demorado, mantenho meu coração pulsando, porque na vida em essência, é isso que importa.
Tudo mais é ilusão.
Na essência do homem vi o amor, ou a crueldade, nos seus maiores requintes: depende do ponto de vista.
E se fiz as escolhas que fiz, foi pra aprender a amar direito: cuidado, amor se traduz nessa única palavra. Não há como amar um ser vivo, qualquer que seja, sem dispender o mínimo de cuidado. Se não for assim, não há amor.
Procuro um amor que não seja feito de palavras. Entenda: amor pelo ser humano, na sua raiz mais profunda, mais básica.
E sobre tudo isso existe o tempo, o tempo que envelhece, que arranca, que revela por fim sua cara.
Como me disse ontem Isabel Allende, "Meu passado tem pouco sentido, não vejo ordem, clareza, propósito nem caminhos, somente uma viagem ás cegas, guiada pelo instinto e por acontecimentos incontroláveis que desviam o curso do meu destino. Não houve cálculo, apenas boas intenções e a vaga suspeita de que existe um traçado superior que determina meus passos."
Na linha do tempo, me reporto ao dia de meu nascimento, do qual não me recordo, mas ouvi contar. Nessa cena que imagino, vejo a força de minha mãe para que eu pudesse nascer, e os braços do meu pai que me apararam na primeira vez que abri os olhos para o mundo.
Só agora entendo que as pessoas que lutarão por mim são aquelas que lutaram desde o momento que dei minha primeira bufada de ar neste mundo, e antes mesmo, em conversas intermináveis, dentro do ventre da minha mãe, quando decidiram me chamar de Sofia.